Ciência e Saúde

Cientistas usam células-tronco para curar macacos com mal de Parkinson

Foto: Taylor Dundee

Nova técnica desenvolvida por japoneses e suecos representa grande avanço na luta contra o Parkinson. 

Uma equipe formada por de cientistas do Japão e da Suécia anunciou que teve êxito ao utilizar células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas pela sigla iPSCs ou apenas iPS, para regenerar neurônios afetados pela doença de Parkinson em macacos. Publicado na última quinta-feira pela revista científica Nature, o estudo sinaliza uma inovação na luta contra a doença de Parkinson.

O pesquisador japonês Jun Takahashi, da Universidade de Quioto, principal autor do artigo publicado na revista britânica, adianta que espera avançar para um ensaio clínico em humanos entre 2018 e 2019. Os animais envolvidos neste estudo pré-clínico foram acompanhados durante dois anos, confirmando assim a segurança e eficácia da técnica.

Os cientistas usaram as chamadas células estaminais pluripotentes induzidas (células adultas que são reprogramadas e que, assim, reconquistam a capacidade de originar qualquer tipo de tecido do organismo e que são conhecidas pela sigla iPS) para reparar a função neurológica de macacos com doença de Parkinson.

Neste caso, as células estaminais foram reprogramadas para se tornarem neurônios dopaminérgicos, os afetados pela doença de Parkinson.

Segundo os cientistas, até agora não era conhecido nenhum estudo que tivesse avaliado a longo prazo o recurso a neurônios dopaminérgicos produzidos a partir de células iPS em qualquer modelo de primata com a doença de Parkinson.

Neste trabalho, foi investigada a doença de Parkinson esporádica – sem história familiar e que é a forma mais comum.

Tendo em conta os resultados obtidos nesta experiência, os cientistas acreditam que a técnica agora experimentada com sucesso em macacos com Parkinson pode ser benéfica para humanos e para outras doenças neurodegenerativas.

O estudo
De acordo com o estudo publicada na Nature, os investigadores inseriram as células estaminais humanas nos cérebros de macacos com Parkinson.

Tratavam-se de linhas celulares que vieram de quatro pessoas saudáveis e três doentes. Uma vez reprogramadas e implantadas no cérebro dos macacos, estas células funcionaram de forma idêntica.

Com este transplante foram substituídos os neurônios afetados pela doença que se caracteriza pela perda destas células nervosas – localizadas em uma zona chamada “substância negra” – e que se tornam incapazes de produzir dopamina.

A morte celular desencadeada pela doença causa problemas motores, sendo que estudos publicados indicam que, quando os sintomas são detectados, a pessoa já terá perdido mais de metade dos seus neurônios dopaminérgicos.

O procedimento com células estaminais usado agora fez com que os macacos recuperassem vários movimentos, relata o artigo na Nature, adiantando que foi feita uma avaliação recorrendo a uma escala neurológica e a vídeos onde se observou a evolução dos movimentos espontâneos dos animais.

Além do efeito que este tratamento teve nos sintomas da doença, os pesquisadores observaram também que as células iPS implantadas nos macacos funcionaram como neurônios dopaminérgicos durante, pelo menos, dois anos.

“Espero que as células enxertadas sobrevivam mais de dez anos com função normal. Existem vários relatos de transplantes feitos com células fetais para doentes com Parkinson que mostram que estas células sobreviveram e funcionaram mais de dez anos”, explica Jun Takahashi.

Apesar de já terem sido feitas algumas experiências que recorreram a células dopaminérgicas de fetos para transplantes em doentes com Parkinson, a abordagem com tecidos fetais é mais complexa e controversa. O fato de ser relativamente simples obter células estaminais a partir de amostras de sangue ou da pele, será uma das principais vantagens da técnica proposta agora pela equipa de Jun Takahashi.

No capítulo da segurança desta terapia não foram observados quaisquer efeitos secundários relevantes, tais como a formação de tumores no cérebro. No entanto, o cientista alerta que, mesmo com a reparação dos neurônios, a doença continua lá.

Mediante isso, fica a dúvida sobre a possibilidade dos “novos” neurônios também serem afetados pela doença no futuro.

“É possível [que a doença progrida nos neurônios transplantados]. Existem vários relatos que mostram que a alfa-sinucleína – proteína associada à doença de Parkinson – volta a acumular nos neurônios fetais que foram transplantados para doentes com Parkinson em experiências anteriores. Mas isso não significa que o efeito dos enxertos foi perdido“, explicou Takahashi, adiantando que a equipe pretende utilizar a técnica para realizar testes clínicos em humanos já no final de 2018.

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