Artes

A arte do teatro tradicional japonês: No, Kyogen, Kabuki e Bunraku

Teatro Kabuki (Foto: Kabukiza Theatre Tokyo)
Teatro Kabuki (Foto: Kabukiza Theatre Tokyo)

Contam que o teatro japonês nasceu quando a Deusa Uzume resolve dançar em cima de um barril, visando atrair a Deusa Amaterasu para fora da caverna onde se escondia…

Atualizado em 02/11/2016 – 10h13


Segundo a mitologia japonesa, o teatro nasceu quando a Deusa Ame-no-Uzume resolveu dançar em cima de um barril, em frente a caverna onde encontrava-se Amaterasu (A Deusa do Sol), que se escondera da violência e malfeitos do irmão, o Deus Susanoo. A Deusa Uzume dançou na tentativa de atrair Amaterasu para fora da caverna, para que esta iluminasse o mundo novamente, conforme citado no livro Kojiki (Registro das coisas antigas).

Atualmente, existem quatro tipos de teatro tradicional ainda apresentados no Japão: No, Kyogen, Kabuki e Bunraku.

No
Originado nos ritos xintoístas, o teatro No (Nō, Nou ou Noh) foi primeiro representado por Kan’ami Kiyotasugu (1333-1384), e mais tarde desenvolvido por seu filho, Zeami (1363-1444). Adotado pelos Daimyo (lordes feudais), acabou tornando-se mais ritualista e cerimonial.

O No combina canto, pantomima, música e poesia, uma das formas mais importantes do drama musical clássico japonês. Esta arte evoluiu de outras formas teatrais, aristocráticas e populares, incluindo o Dengaku, Shirabyoshi e Gagaku. O termo no deriva da palavra japonesa que quer dizer talento ou habilidade. Muitas de seus personagens usam máscaras, os shites (protagonista) e seu acompanhante, mas não todos.

O No tradicional é apresentado em um palco vazio, com três lados de madeira de cipreste, telhado como de um santuário e entrada lateral em rampa. Tradicionalmente, os atores No são todos homens e usam máscaras para interpretar personagens femininos ou demônios, estes aparecem um ou dois a cada vez, sempre com movimentos lentos e coreografados – chamados de kata e também usados em artes marciais – com fundo musical da era feudal.

Para dar imponência aos atores, são usados trajes decorados e pesados que possuem várias camadas. Esta modalidade chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses, mas não sobreviveu.

Teatro “No” atual
Se uma apresentação de No costumava durar quase um dia inteiro e consistia de cinco peças intercaladas com pequenos textos cômicos de Kyogen, nos dias de hoje consistem de apenas duas peças de No tradicional intercaladas com uma de Kyogen.

Embora seja uma arte tradicional e não de inovação, algumas companhias compõem textos novos ou apresentam peças tradicionais não comuns ao velho repertório. Apresentações que misturam o NO com outras tradições teatrais também acontecem, além da inclusão de mulheres. As atuais companhias de No estão localizadas em Tóquio, Osaka e Kyoto (Quioto).

De modo geral, No é a fusão de poesia, teatro, bailado, música vocal e instrumental e máscaras. Os diversos elementos musicais são estreitamente entrelaçados numa simbiose entre o canto e a pantomima. A descrição de cada cena repousa unicamente no texto do canto, nos gestos e nos movimentos do ator. A combinação desses elementos obedece a regras corporais e musicais, a teorias sofisticadas, resultando numa estética extremamente refinada, única e linda.

Kyogen
O Kyogen originou-se no séc. XIV, evoluindo a partir de interlúdios cômicos, para substituir a natureza exigente do No, ou seja,  é a forma cômica de teatro japonês tradicional.

Esse tipo de teatro é caracterizado pela simplicidade da estrutura do palco, com interpretações sem coreografia, onde são apresentados temas atuais, como a relação de chefes e subordinados. Com isso, o Kyogen manteve-se no atual formato desde sua origem.

Como um teatro informal, o Kyogen destaca a fragilidade do homem. As máscaras são raras e os trajes simples. Comumente, os atores vestem meias chamadas tabi. Duas escolas constituem o Kyogen, sendo elas Okura e Izumi.

Esta forma de teatro foi difundida durante o período Muromachi, e posteriormente durante o período Edo sob o Shogunato Tokugawa.

Kabuki
No século XVII, os japoneses sentiram a necessidade de um teatro mais compreensível e divertido, portanto – evoluindo do No – nasce o Kabuki em Kyoto, patrocinado pelo Shogunato.

O Kabuki foi fundado por Izumo no Okuni, contudo, neste tempo não era comum mulheres trabalharem como atrizes.

Depois do veto de mulheres em realizar esta forma de teatro, os atores masculinos praticavam o crossdresser, conhecidos como onnagata (papel de mulher) ou oyama.

Esta forma de teatro é exuberante, com palco e elenco grandiosos.  Máscaras são substituídas pelas maquiagens bem elaboradas e as cortinas permitem mudanças no cenário, que utilizam efeitos especiais, como alçapões, setores que giram e cabos elevados para os artistas “voarem”.

Músicos e coro sentam atrás de um biombo ou de cada lado do palco. O estilo Aragoto, ou “estilo brusco de atuar”, é usado em peças por personagens masculinos com maquiagem estilizada. Estes se deslocam de maneira exagerada e as expressões faciais e de olhos são fundamentais para uma boa atuação.

Os atores menos importantes geralmente ficam na direita do palco, enquanto que os mais importantes à esquerda. Nota-se maior status do personagem observando peruca e trajes – quanto mais elaborados e caracterizados, mais indicam a personalidade do mesmo.

Os atores Kabuki foram muito retratados em xilogravuras no período Edo. Atualmente, o Kabuki é o teatro tradicional japonês mais difundido e apreciado no ocidente.

Bunraku
O Bunraku, é uma forma de teatro de títeres (espécie de marionetes) e, assim como o Kabuki, visa o grande público. Os títeres têm 1,2 m de altura, mãos móveis e cabeças e trajes entalhadas em madeira.

Comumente, a peça é apresentada por dois assistentes – um de cada lado – que se vestem de preto, já o titeriteiro usa traje formal ou de acordo com o tema da peça. Os títeres podem representar tanto humanos como animais.

A história é contada por uma narrador e, enquanto ele fala, a música shimasen acompanha as ações em todas as cenas. Muitas das peças Kabuki foram originalmente escritas para títeres, mas o Bunraku usou muito das peças Kabuki.

Por Maria Rosa
Principais fontes de pesquisa:

History Kabuki
• Fundação Japão em São Paulo
• Embaixada do Japão no Brasil

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