Mitos e Lendas

Ushi-oni, o ‘bicho-papão’ japonês

Há uma enormidade de contos sobre o Ushi-oni, o que faz dessa criatura um dos personagens mais populares do folclore japonês.

No Japão, o nome Oni é geralmente dado a uma variedade de monstros que se assemelham a bois. O termo começou a ser utilizado em torno da Era Heian (784-1185). Ele aparece em uma lista de contos com o título “Coisas com nomes aterradores”.

Oni é relacionado à personagens do folclore japonês, onde há inúmeros contos sobre essa criatura. Neles, o monstro é referido como Ushi-oni, geralmente retratado como uma criatura misteriosa e, por muitas vezes, representada na forma humana. Portanto, a palavra “Oni” simboliza quase tudo o que é misterioso ou estranho.

Embora alguns o vejam como um guardião do inferno, esse personagem é um pouco diferente do diabo ou demônio imaginado pelos ocidentais. Isso porque Ushi-oni figura nos contos infantis japoneses, equivalente ao “bicho-papão” ocidental. Seu papel é causar medo nas crianças para que elas não se desviem do bom caminho.

Ushi-oni (Imagem: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

Ushi-oni (Imagem: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

Tipos variados de personalidade
Alguns contos retratam essa criatura como a própria encarnação do mal, enquanto outros a descrevem como um ser adorável. Ora a criatura é um monstro terrível a ser derrotado pelo herói, outra pode até salvar a vida de um ser humano mesmo sabendo que isto lhe custará a existência. As vezes se transfigura em uma mulher, geralmente para atrair um ser humano ingênuo com o intuito de devorar-lhe a sombra e/ou simplesmente para aproximar-se, atraído por mera curiosidade.

Ligação de Ushi-Oni à religiosidade
No Japão, o dia 3 ou 4 de fevereiro, dependendo do calendário lunar japonês, é conhecido como  Setsubun , que significa “divisor de estação”. Ele marca a passagem do inverno para a primavera, segundo o antigo calendário japonês. O Setsubun tem ligação religiosa e um ritual envolvendo espiritualidade.

Estátua de um demônio Oni Vermelho empunhando uma clave kanabo (Foto: Creative Commons)

Estátua de um demônio Oni Vermelho empunhando uma clave kanabo (Foto: Creative Commons)

De acordo com o calendário lunar japonês, que era utilizado até 1873, no qual a numeração dos meses estava por volta de um mês e meio atrás em relação ao calendário solar moderno, a chegada da primavera (Risshun ou Setsubun) foi designada como o terceiro ou quarto dia do segundo mês do ano.

Na noite do  Setsubun , os japoneses mais tradicionais costumam abrir janelas e portas, e espalhar grãos de soja pela casa enquanto se diz “fuku wa uchi, oni wa soto” (“sorte entre e demônios saiam!”). Acredita-se que o ato espanta os maus espíritos, o frio e a tristeza do inverno, atraindo a felicidade e dando as boas-vindas à celebração de uma nova e brilhante primavera. Neste caso, o “Oni” representa os espíritos maus do frio e do inverno.

Variedades de descrições de formas
As descrições sobre Ushi-oni são diversas. Uns dizem que ele se assemelha a um boi com a cabeça de um ogro e nariz vermelho parecido com o do Tengu. Contam às lendas que, a noite, ele visita os celeiros onde os bois são alojados, lambe os corpos dos animais para depois lutar com eles. Raramente é notado, pois seus passos são silenciosos e seus chifres são moles como se fossem de borracha, que não fazem barulho quando atingem as paredes.

O Ushi-oni é frequentemente encontrado no folclore japonês como uma criatura aquática que mora no mar ou em lagos das montanhas. As histórias sobre ele são contadas principalmente nas regiões de Shikoku, Kinki e Chugoku. Este monstro é conhecido pelo seu temperamento feroz. A crença diz que matá-lo ou cultivar algum ressentimento por ele poderá levar uma pessoa à morte e propagar maldições sobre a família do mesmo.

Muitas das “histórias”sobre Ushi-oni habitando em poços e cachoeiras são provenientes da antiga província de Kumano (atualmente distrito de Nishimuro e Higashimuro). As massas de água são frequentemente chamadas de “Ushi-oni-fuchi” ou “Ushi-oni-taki”.

Aparições e lendas
Contam que, no Japão antigo, no Vale de  Mino, em Oto, existiu um Ushi-oni com a cabeça de um gato, corpo bovino de cor amarela com manchas pretas e uma cauda de dez metros de comprimento. Dizem que se uma pessoa tiver a infelicidade de apenas olhar esse monstro, pode ficar doente e chegar até mesmo vir a falecer.

Relatos antigos afirmam que em Esumi, na província de Wakayama, existe uma cachoeira que é conectada ao oceano. A lenda de Esumi conta que quando a água fica barrenta, é aconselhado não ir ao lugar, o risco de esbarrar com a besta é dado como quase certo. Dizem que seus gritos podem ser ouvidos a noite em todos os dias 23 de cada mês.

Em Susami, há uma cachoeira chamada Kotonotaki. Dizem que a besta que habita o local mata as pessoas devorando suas sombras. No entanto, o Ushi-oni ama bebida (uns dizem que gostam de saquê e outros de pagu ardente), oferecê-lo em sua homenagem nas noites de Ano Novo pode proteger uma pessoa de ter sua sombra devorada pela criatura. Há ainda relatos que o local abriga um Oni devorador de gente.

Ushi-Oni (Imagem: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

Oni devorador de gente (Imagem: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

A região de Uwajima na província de Ehime, é famosa por seu desfile de carros alegóricos esculpidos com cabeças de madeira. Existem várias lendas sobre o Ushi-oni nesta região. Uma delas alega que eles veneram uma criatura morta por um arqueiro da província de Iyo (antigo nome da província de Ehime), e outra que foi inventada para assustar os “Tigres do Sul” durante a guerra Imjin.

A história sobre Oshi-Oni e o guereiro Yamada Kurando Takakiyo é narrada na gruta do Templo Negoro-ji (Foto: Takegon/Henro)

Outra famosa lenda de Ushi-oni é contada em Negoro-ji, na província de Kagawa, que era conhecida como província de Sanuki. Por um breve período, entre 1876 e 1888, Kagawa foi parte da província de Ehime.

Cotam que o Oshi-oni de Negoro-ji tem uma forma diferenciada. Ele é retratado como bípede e cabeça de boi, com dentes enormes e retorcidos para fora da boca. Dizem que ele tem uma membrana entre os pulsos e axilas, como um esquilo voador. A lenda conta que uma destas criaturas foi abatida perto de um templo há cerca de 400 anos por Yamada Kurando Takakiyo, um guerreiro especialista em arco e flecha.

Depois que Yamada matou o monstro, tirou seus chifres e deu para o Templo Negoro-ji , junto com uma imagem que ele pintou do monstro. Esses objetos ainda se encontram até hoje entre os tesouros do templo, onde podem ser apreciados por visitantes.

Estátua de Oshi-Oni no Templo de Negoro-ji (Foto: Takegon/Henro)

Ushi-oni tomando forma de mulher
Existem mais de uma lenda sobre Ushi-oni que tomava a forma de mulheres jovens na cidade de Koza Nishimuro. Uma delas, a mais famosa, conta que um Ushi-oni apareceu na forma de uma bela jovem no Monte Kasane, em resposta ao som da flauta de um jovem caçador. O pobre jovem entrou em pânico quando viu a verdadeira forma de Ushi-oni refletida em um córrego e atirou nela. No dia seguinte, a maldição dos Ushi-oni’s foi lançada, o jovem caçador enlouqueceu e nunca mais voltou ao normal.

Junto às costas no norte de Kyushu, região costeiras adjacente ao Mar do Japão, acredita-se que os Oshi-oni’s habitam esse oceano. Dizem que sai do mar transfigurado na forma de uma mulher. Aparece com uma criança nos braços – um Oshi-oni-criança – pressionando os transeuntes, implorando-lhes para levar a criança e dar-lhe algo para comer. Quando ingenuamente a pessoa vai carregando a criança, esta torna-se extremamente pesada como pedra, o que é considerado uma artimanha do Ushi-oni com o intuito de impedir os movimentos da infeliz pessoa, dando a criatura uma excelente oportunidade para atacar sua vítima.

Ushi-oni mostra um raro lado bom
Em Miogawa, um jovem chamado  Matanosuke Ueda , compartilhou seu almoço com uma moça que apareceu do nada exigindo que ele dividisse sua comida.

Prontamente o rapaz lhe obedeceu, saciando a fome da moça que lhe gradeceu, sumindo tão rápido como lhe surgiu. Mais tarde,  Matanosuke  estava sendo tragado por uma inundação devastadora e preste a morrer, Ushi-oni moça apareceu e tomou a sua forma verdadeira, a fim de resgatá-lo. Em seguida, ela revelou que não podia continuar a viver por ajudar um ser humano. Logo após essa declaração, ela dissolveu em uma poça de sangue e desapareceu no rio. Devido a esse ato raro de bondade, o povo de  Miogawa , acredita que “essa” Ushi-oni era realmente fêmea e mantinha sentimentos amorosos pelo rapaz.

Popularidade do Ushi-oni
No geral, existem inúmeras retratações dessa criatura. Há até mesmo relatos sobre um Ushi-oni com o corpo de aranha. Tais variedades de formas e de contos fazem do Ushi-oni um dos personagens mais populares do folclore japonês. Isso porque o número de “histórias” envolvendo essa criatura ultrapassa, até mesmo, os vários contos sobre a Katsune (raposa), que ganhou fama no ocidente após ser um dos personagens centrais no mangá Naruto.

Ushi-oni com forma de aranha (Imagem: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2006)
Principais fontes de pesquisa
Livro: Mitos e Lendas do Japão – Autor: F. Hadland Davis | Seleção e Tradução: Cecília Casas | Edição e publicação: Editora Landy
Livro: História da cultura japonesa – Autor:  José Yamashiro | Edição e publicação: Editora Ibrasa.

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