Mitos e Lendas

Lenda japonesa: Dama Branca e Dama Amarela

Crisântemos branco e amarelo. Obra do artista Koitsu Tsuchiya 1870-1949 (Foto: Ohmi Gallery)

O crisântemo figura com destaque na história japonesa e muitas são as lendas a respeito dessa esplendorosa flor…

O crisântemo é a flor nacional do Japão e símbolo da Família Imperial. Ela reflete um simbolismo fértil de significados culturais japoneses e muitas são as histórias sobre esta esplendorosa flor, contadas desde tempos antigos.

Com admirável habilidade de artistas japoneses, pinturas mitológicas de barcos, castelos, pontes e vários outros objetos foram desenhados a partir dessa flor. Muitos desses artistas foram eternizados por especializar-se em pintar gravuras de crisântemo como principal tema.

Essa flor, no entanto, tem destaque maior que as outras no país, sendo até mesmo mais afamada que a adorada e belíssima flor de cerejeira. Isso porque o crisântemo figura como símbolo do brasão da Casa Imperial Japonesa desde tempos idos, dando apropriadamente o nome do trono japonês de o “Trono do Crisântemo”.

A fama dessa flor cresceu ainda mais depois de 1859, quando surgiu a necessidade de criar uma bandeira japonesa, época em que o país adotou apenas o estandarte do sol.

No entanto, um simples círculo sem raios não era o suficiente e executou-se então um desenho mais elaborado com o “Crisântemo de dezesseis pétalas”, um simbolismo apropriado ao padrão Imperial.

Mediante isso, essa flor de vasto simbolismo – tanto na cultura com na história japonesa – ganhou atenção especial de um vasto número de escritores e, consequentemente, publicações de livros, contos e romances no decorrer dos séculos. Muitos contos, no entanto, foram transformados em lendas e interpretados como mitos, já que alguns mesclam fantasia com a história real do Japão.

Um dos contos, ou lenda, mais famosos sobre essa flor chama-se “Dama Branca e Dama Amarela”. A história narra sobre duas flores de crisântemo que se distinguem pela personalidade, aparência e cor. As duas, no entanto, são amigas desde o início de suas existências, mas acabam separadas por destinos diferentes.

Dama Branca e Dama Amarela
Contam que, em tempos idos, cresciam lado a lado em uma campina um crisântemo branco e outro amarelo. Eram, na verdade, “duas” crisântemos praticamente irmãs de tão amigas. Passavam o dia conversando e apreciando a bela paisagem da planície onde nasceram.

Certo dia, um velho jardineiro as viu e se apaixonou pela Dama Amarela. O velho disse que se a flor quisesse acompanhá-lo, ele a faria mais bela do que já era. O jardineiro ainda argumentou que lhe daria comida delicada e lindas roupas.

A Dama Amarela sentiu-se tão atraída pelo que o velho jardineiro lhe prometia que se esqueceu de sua irmã branca, consentindo em ser desenterrada e carregada nos braços para ser plantada no jardim de seu dono.

Depois que a Dama Amarela partiu, a Dama Branca chorou amargamente. Sua beleza singela havia sido desprezada e, pior que isso, viu-se forçada a permanecer sozinha no campo, sem ter mais a irmã, a quem era devotada a conversar.

Dia após dia mais bela ficava a Dama Amarela no jardim de seu senhor. Ninguém reconheceria agora a simples flor amarela do campo. Porém, embora suas pétalas fossem longas e curvas, e suas folhas limpas e tão bem cuidadas, ela às vezes se lembrava de sua irmã branca que ficou sozinha na campina e imaginava o que estaria fazendo para que suas longas e solitárias horas passassem.

Certo dia, um capitão do vilarejo foi ao jardim do velho jardineiro à procura de um crisântemo perfeito para ser desenhado no elmo de seu senhor. Informou que não desejava um belo crisântemo com muitas e longas pétalas. Queria um simples crisântemo branco de dezesseis pétalas. O velho jardineiro mostrou ao capitão a Dama Amarela, mas ele não gostou da flor e agradeceu, partindo em seguida.

No caminho de casa, atravessou um campo onde viu a Dama Branca chorando. Ela contou a triste história de sua solidão ao capitão. Então ele contou que havia visto a Dama Amarela e disse-lhe que ela não era nem metade tão bela quanto à branca flor que tinha diante dos olhos.

Crisântemo Branco (Foto: Creative Commons Commons)

Ante essas palavras animadoras, a Dama Branca parou de chorar e quase arrancou seus pezinhos ao pular de alegria quando esse bom homem afirmou que a queria para o elmo de seu senhor.

No instante seguinte a Dama Branca, felicíssima, estava sendo transportada em um palanquim. Ao chegar no palácio do Daimyo, todos elogiaram, sinceramente, sua admirável perfeição de forma.

Grandes artistas vieram de longe e de perto, sentaram-se junto dela e a esboçaram com admirável perícia. Logo ela não precisou mais de espelho para se mirar, pois havia sua bela face branca presente em todos os mais preciosos bens do Daimyo.

A Dama Branca, além de figurar na armadura do Daimyo, bem como em todo equipamento de guerra de seus guerreiros, também foi retratada em seus estojos de laca e de prata, em seus travesseiros, colchas e mantos, até mesmo em vasos de porcelana, tapetes e em todas a mobília do castelo do Daimyo.

Estojo de prata da Era Meiji entalhado com crisântemos (Foto: Asahi Images)

Olhando para cima, podia ver o rosto da Dama Branca entalhado em grandes painéis. Foi pintada de todas as maneiras possíveis, até boiando sobre a correnteza.

Todo mundo concordava em que a Dama Branca, com suas pétalas de tamanho perfeito, representava o mais belo elmo, bem como o mais imponente punho de espada em todo o Japão.

Punho de tradicional espada japonesa entralhada com crisântemos de 16 pétalas (Foto: Kyodo/Casa Imperial do Japão)

Enquanto a face feliz da Dama Branca era perpetuada nos bens do Daimyo, a face da Dama Amarela só transpirava tristeza. Havia florescido por si, sozinha, e sorvido os elogios dos visitantes com a mesma avidez com que bebia o orvalho sobre suas pétalas primorosamente curvas.

No entanto, em certo dia, ela sentiu uma rigidez nos membros e percebeu o fim da exuberância de sua existência. A antiga cabeça amarela outrora orgulhosa pendeu para o lado e, quando o velho jardineiro a viu, arrancou-a do canteiro e a jogou em um amontoado de lixo.

Foto/Imagem: Montagem Mundo-Nipo

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2008)
Fontes principais de pesquisa
• Livro: Legends of Japan | Author: F. Hadland Davis
• Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
• Livro: História da cultura japonesa – Autor:  José Yamashiro | Edição e publicação: Editora Ibrasa.

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