Mitos e Lendas

Crisântemo, flor que representa o Império do Japão

O crisântemo é a flor nacional do Japão e símbolo da Família Imperial. Ela reflete um simbolismo fértil de significados culturais e muitas são as histórias sobre esta esplendorosa flor.

Muitos estão familiarizados com a bandeira japonesa, um sol vermelho sobre um fundo branco, que alguns supõem que tal emblema seja originalmente vinculado a Amaterasu, Deusa do Sol e da qual é creditado a descendência da família imperial. Entretanto, esta suposição é ledo engano, pois trata-se de uma variação do estandarte do sol que, posteriormente, adquiriu raios simbolizando o “Crisântemo de dezesseis pétalas”, flor que representa o Império do Japão.

Em tempos antigos, signos astrológicos com diferentes simbolismos figuravam nos estandartes chineses, que descreviam o sol, lua, lebre, acácia, pássaro, tartaruga, dragão, tigre, entre outros. Tais estandartes foram adotados pelo Japão no século VII, com os que representavam o sol e a lua. O sol representava o irmão mais velho do Imperador e, a lua, sua irmã. Porém, com o passar do tempo, os japoneses abandonaram muitos desses signos astrológicos tão caros aos chineses.

"Jardim de Crisântemos", obra do artista Toyohara Chikanobu (1838-1912)

“Jardim de Crisântemos”, obra do artista Toyohara Chikanobu (1838-1912)

Foi somente em 1859 que surgiu a necessidade de se criar uma bandeira japonesa, época em que o país adotou apenas o estandarte do sol. No entanto, um simples círculo sem raios não era o suficiente e executou-se então um desenho mais elaborado com o “Crisântemo de dezesseis pétalas”, um simbolismo apropriado ao padrão Imperial.

Crisântemo, a flor nacional do Japão
O crisântemo então tornou-se a flor nacional do Japão por refletir um simbolismo fértil de significados culturais do país. Famosas pinturas mitológicas de barcos, castelos, pontes e vários outros objetos foram desenhados a partir dessa flor, com admirável habilidade de artistas japoneses.

Selo Imperial do Japão - Crisântemo de dezesseis pétalas (Imagem: Reprodução/Edição de arte MN)

Outrora o crisântemo figurou como uma insígnia na “Guerra dos Crisântemos”, uma longa guerra civil que dividiu a nação em duas facções hostis. Nos tempos atuais, no entanto, a flor representa a união do Império japonês, com seu trono apropriadamente nomeado de o “Trono do Crisântemo”.

O Crisântemo de dezesseis pétalas figura no “Selo Imperial de Japão”, que também é chamado de Seal Crisântemo ou Crisântemo Flor Seal. O emblema ou crista é usado por membros da família imperial japonesa.

Lendas
Muitas são as histórias em torno desta flor, umas com registros de veracidade e outras que, embora narrem passagens históricas do país, foram criadas por pura admiração e amor pela esplendorosa flor.

Dama Branca e Dama Amarela
Contam que em tempos idos, cresciam, lado a lado em uma campina, um crisântemo branco e outro amarelo, Certo dia, um velho jardineiro os viu e se apaixonou pela Dama Amarela. Ele lhe disse que se ela quisesse acompanhá-lo, ele a faria mais bela do que já era. O jardineiro ainda argumentou que lhe daria comida delicada e lindas roupas.

"Crisântemos brancos", detalhe da obra do artista Ito Jakuchu (1716-1800)

“Crisântemos brancos”, detalhe da obra do artista Ito Jakuchu (1716-1800)

A dama Amarela sentiu-se tão atraída pelo que o velho jardineiro lhe dizia que se esqueceu de sua irmã branca, consentindo em ser desenterrada e carregada nos braços para ser plantada no jardim de seu dono.

Depois que a dama Amarela partiu, a dama Branca chorou amargamente. Sua beleza singela havia sido desprezada e, pior que isso, viu-se forçada a permanecer sozinha no campo, sem ter mais a irmã, a quem era devotada a conversar.

Dia após dia mais bela ficava a dama Amarela no jardim de seu senhor. Ninguém reconheceria agora a simples flor amarela do campo. Porém, embora suas pétalas fossem longas e curvas, e suas folhas limpas e tão bem cuidadas, ela às vezes se lembrava de sua irmã branca que ficou sozinha na campina e imaginava o que estaria fazendo para que suas longas e solitárias horas passassem.

Certo dia, um capitão da vila veio ao jardim do velho jardineiro à procura de um crisântemo perfeito para ser desenhado no elmo de seu senhor. Informou que não desejava um belo crisântemo com muitas e longas pétalas. Queria um simples crisântemo branco de dezesseis pétalas. O velho jardineiro mostrou ao capitão a dama Amarela, mas ele não gostou da flor e agradeceu, partindo em seguida.

No caminho de casa, atravessou um campo onde viu a dama Branca chorando. Ela contou a triste história de sua solidão ao capitão. Então ele contou que havia visto a dama Amarela e disse-lhe que ela não era nem metade tão bela quanto à branca flor que tinha diante dos olhos.

Ante essas palavras animadoras, a dama Branca parou de chorar e quase arrancou seus pezinhos ao pular de alegria quando esse bom homem afirmou que a queria para o elmo de seu senhor.

No instante seguinte a dama Branca, felicíssima, estava sendo transportada em um palanquim. Ao chegarem ao palácio do Daimyo, todos elogiaram, sinceramente, sua admirável perfeição de forma.

Grandes artistas vieram de longe e de perto, sentaram-se junto dela e a esboçaram com admirável perícia. Logo ela não precisou mais de espelho para se mirar, pois havia sua bela face branca presente em todos os mais preciosos bens do Daimyo.

A dama Branca, além de figurar na armadura do Daimyo, também foi retratada em seus estojos de laca, em seus travesseiros, colchas e mantos. Olhando para cima, podia ver o seu rosto entalhado em grandes painéis. Foi pintada de todas as maneiras possíveis, até boiando sobre a correnteza. Todo mundo concordava em que o branco crisântemo, com suas dezesseis pétalas, representava o mais belo elmo de todo o Japão.

Enquanto a face feliz da dama Branca era perpetuada nos bens do Daimyo, a face da dama Amarela só transpirava tristeza. Havia florescido por si, sozinha, e sorvido os elogios dos visitantes com a mesma avidez com que bebia o orvalho sobre suas pétalas primorosamente curvas. No entanto, um dia, ela sentiu uma rigidez nos membros e percebeu o fim da exuberância de sua existência.

A antiga cabeça orgulhosa pendeu. O velho jardineiro então a arrancou do canteiro para jogá-la sobre um monte de lixo.

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2008)
Fontes principais de pesquisa
• Livro: Legends of Japan | Author: F. Hadland Davis
• Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
• Livro: História da cultura japonesa – Autor:  José Yamashiro | Edição e publicação: Editora Ibrasa.

*Mundo-Nipo. Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita do Mundo-Nipo.com. Para maiores esclarecimentos, leia a Restrição de uso .

Comentários