Mitos e Lendas

Lendas sobre Kitsune: raposas da mitologia japonesa

Kyuubi no Kitsune, obra de Utagawa Kuniyoshi, datada do período Edo (Foto: Creative Commons)

Contam as lendas japonesas que as kitsunes são raposas com poderes místicos, sagrados ou amaldiçoados.

Atualizado em 06/11/2016 – 08h31


Kitsune (狐) significa “raposa” em japonês. A palavra, no entanto, é uma onomatopeia do “kitsu”, que significa “o ganido da raposa”, e acabou tornando-se o nome do animal em tempos antigos. Hoje em dia, os japoneses usam “kon-kon” ou “gon-gon” para designar a raposa, já que a onomatopeia “kitsu” acabou no desuso.

É dito que, no Japão, sua imagem simboliza inteligência, sabedoria e, de acordo com relatos contidos em várias lendas à seu respeito, são animais com poderes mágicos (místicos), sagrados ou amaldiçoados. A kitsune é um dos personagens mais populares da mitologia japonesa.

"O choro da Kitsune”. Obra do artista Yoshitoshi Tsukioka (Foto: Acervo Yoshitoshi Tsukioka )

“O Choro da Kitsune”. Obra do artista Yoshitoshi Tsukioka (Foto: Acervo Yoshitoshi Tsukioka )

Existem diversas lendas relacionadas às kitsunes. Porém, não há uma certeza de sua origem (China, Coreia, Índia, Japão ou outros países da Ásia), no entanto, alguns registros relatam que, a partir do século IV d.C, a convivência das raposas com os humanos no arquipélago japonês era corriqueira, fato que pode ser relacionado à origem das lendas sobre kitsune.

Entretanto, histórias envolvendo kitsune são amplamente relatadas em dois registros antigos: Kojiki” (a mais antiga crônica do Japão, compilado em 712 d.C. “Registro das Coisas Antigas”) e “Nihongi” (também chamado de “Nihon Shoki” e “Hihongi”), este segundo registro representa as “Crônicas do Japão”, compilado em 720 d.C. e contém parte da história “real” do Japão.

Kitsune disfarçada, dançando com humanos (Foto: Reprodução da obra do artista Matthew Meyer)

Kitsune disfarçada, dançando com humanos. Obra do artista Matthew Meyer (Foto: Reprodução)

Lendas sobre as kitsune quase sempre englobam sabedoria. Feito isso, elas representam bem o velho ditado “Esperto como uma raposa” por simbolizar inteligência e sagacidade. Acredita-se que todas as kitsunes sejam fêmeas, isso porque “histórias” a seu respeito quase sempre a denominam com nomes femininos.

Contam que as kitsunes geralmente são mais fortes que os seres humanos e por isso tendem a agir com arrogância sempre que entram em contato com um. Dizem que todas são dotadas com poderes incríveis, incluindo possessão, habilidade de cuspir fogo, manipular e surgir em sonhos, criar ilusões, dobrar o tempo e espaço, enlouquecer e até mesmo matar pessoas.

Contam ainda que as kitsunes geralmente são invulneráveis aos ataques humanos. Porém, kitsune de natureza má pode ser derrotada pelos Taijiya, que são exterminadores especializados em Youkai (criaturas sobrenaturais). Diz-se ainda que os sagrados monges budistas – possuidores da benção divina do de Buda – podem exterminar uma kitsune má apenas com uma simples oração.

Algumas variações de Kitsune

• Ama-terasu no Kitsune: Diz-se ser a Deusa do sol “Amaterasu” que aparece na forma de uma raposa branca. Diz a lenda que se uma pessoa estiver passando por maus presságios e esta for devota da Deusa, Amaterasu atende as suas orações quando estas são de coração puro. Ela desce de seu reino em forma de uma raposa para apartar todo mau que a pessoa estiver passando.

• Bakemono-Kitsune: É uma kitsune má e espectral (como um fantasma), muito parecido com Reiko, Kiko e Koryo.

• Genko: kitsune preta, normalmente é vista como um bom Omen (bom presságio).

• Kiko: Espírito de uma kitsune. Normalmente, as ktsunes não são fantasmas, no entanto, elas podem aparecer como espíritos.

• Kitsune: Termo geral para a palavra “Raposa”, kitsunes podem ser retratadas tanto como boas ou más em suas lendas.

• Kitsune-bi: kitsunes com o poder de invocar chamas através de sua boca e de sua cauda.

• Kitsune-Tokoya: kitsune peritas em pregar peças e disfarçar-se em humanos. Dizem que em uma pequena província no Japão, uma kitsune disfarçou-se de barbeiro, deixando careca todos os clientes. Assim, todos os moradores da vila ficaram de cabeças raspadas. Por isso, o animal encantado acabou ganhando o apelido de Kitsune-Tokoya, ou seja, “raposa barbeira”.

• Koryo: kitsune Amaldiçoada.

• Kuko: kitsune do elemento ar. Kukos são kitsunes muito más.

• Kyuubi no Kitsune: São as kitsunes que alcançam os 1.000 anos. Nessa idade, a cor de sua pelagem muda para prateada ou dourada. Alcançam até 9 caudas e é quando ganham a habilidade de poder ver e ouvir tudo em qualquer lugar no mundo, atingindo assim, a sabedoria infinita e onisciência.

• Nogitsune: kitsunes selvagens, normalmente é usada para diferenciar entre as boas e más kitsunes. Assim eles usam o termo “kitsune”, para as boas raposas, aquelas que seguem e são mensageiras do Deus Inari.  As que não o seguem, são chamadas de Nogitsunes. Porém, nem todos os tipos de Nogitsunes são necessariamente más. Existem algumas que apenas gostam de pregar peças nos seres humanos, como a Kitsune-Tokoya.

• Reiko: Fantasma de uma kitsune. Essa variedade não é propriamente má, contudo, há algumas lendas que a descreve muito maliciosas.

• Shakko: kitsune vermelha, podem ser consideradas tanto como boas ou más, pois não têm o conhecimento do que é moral.

• Tenko: kitsune celestial. Não são consideradas tão más como a Bakemono-Kitsune, ou tão benevolentes e sábias como as mensageiras do Deus Inari.

• Yako/Yakan: Termo geral para a palavra “Raposa”, ou seja, o mesmo que kitsune.

Kyuubi no Kitsune
Forjando a espada Ko-Kitsune Maru (Foto: Reprodução da obra de Ogata Gekko)

Ferreiro Munechika sendo ajudado pelo espírito da Kitsune para forjar a lâmina “Ko-Kitsune Maru”. Obra de Ogata Gekko (Foto: Creative Commons)

Além das kitsunes especificadas acima, existe uma infinidade de variações dessa criatura e cada qual com suas histórias. A mais famosa é a Kyuubi no Kitsune (raposa de nove caldas).

Diz-se que a cada cem anos uma nova cauda nasce e, a cada cauda adquirida, seus conhecimentos e poderes aumentam. Um desses poderes é o de transfigurar-se na forma humana. Algumas lendas contam que elas usam esses poderes para enganar as pessoas, outras dizem que são amigas e companheiras fiéis ou até se tornam lindas e amorosas esposas.

O máximo de caudas que uma Kyuubi no Kitsune pode alcançar são nove, mas esse número ocorre apenas quando atinge os 1.000 anos de idade. de acordo com o Kojiki.

Ao nascer da nona cauda, sua coloração muda para prateada ou dourada e, a partir de então, elas passam a possuir sabedoria infinita e capacidade de ouvir qualquer coisa, incluindo pensamentos dos humanos. Isso que dizer que ela adquire a onisciência ou omnisciência, que é deter toda sabedoria, saber tudo que seja cognoscível, incluindo pensamentos, sentimentos, vida, passado, presente e futuro.

Sendo assim, quanto mais cauda tiver, mais poderosa será a Kyuubi no Kitsune.

Existe uma lenda que é considerada a mais popular e famosa sobre uma espécie de Kyuubi no Kitsune. Trata-se da kitsune “Tamamo-no-Mae”, a mais maldosa de todas. Algumas dessas espécies não são simplesmente más, mas quando decidem ser, são capazes de transforma-se em verdadeiras assassinas em série.

Lendas

Kitsune Tamamo-no-mae
A kitsune mais maldosa de todas, sem dúvidas, foi a Tamamo-no-Mae, que ao longo de sua existência conseguiu infiltrar-se nos tribunais imperiais da Índia, China e Japão, e causar tantos danos e mortes que fora considerada uma Criminosa Internacional, procurada em todo o continente Asiático.

Príncipe Hanzoku aterrorizado com a raposa de nove caudas. (Foto: Reprodução da obra do artista Utagawa Kuniyoshi)

Príncipe Hanzoku aterrorizado com a raposa de nove caudas. Obra de Utagawa Kuniyoshi (Foto: Creative Commons)

Essa criatura levou destruição ao rei da Índia, matando milhares de seus súditos antes de fugir para a China, onde foi responsável pela queda da dinastia Chou, para reaparecer, tempos depois, no Japão como uma cortesã do Imperador Konoe.

Sua sabedoria e beleza encantavam o povo japonês, a corte Imperial e até mesmo o Imperador. Era considerada a mulher mais bela e inteligente do Japão. O Imperador Konoe apaixonou-se por ela e logo depois foi acometido por uma doença inexplicável. Médicos, Monges e até filósofos tentaram em vão descobrir a causa da enfermidade de Konoe.

Quando o Imperador já dava sinais de que sua morte era certa, finalmente um astrólogo chamado Abe no Yasuchika descobriu que Tamamo-no-Mae era a causa da enfermidade. Yasuchika explicou que aquela linda moça era na verdade uma Kyuubi no Kitsune disfarçada, e que tinha o intuito de usurpar o trono de Konoe.

Assim que descoberta, o boato espalhou-se e Tamamo-no-Mae fugiu para as planícies da Nasu. Depois de muitas buscas em vão, o Imperador mandou chamar Kazusa-no-Suke e Miura-no-Sube, que eram os guerreiros mais poderosos do Império na época. Os guerreiros foram diversas vezes ludibriados na caçada, até que um dia, Tamamo-no-Mae apareceu em sonho para Miura e rogou para que ele poupasse sua vida, pois ela havia tido o mau presságio de que Miura a mataria no dia seguinte. Porém, sem nenhuma piedade, Miura recusou.

Na manhã seguinte, finalmente os guerreiros conseguiram encurralar Tamamo-no-Mae na planície de Nasu. Justamente Miura foi quem a matou com uma flechada. O corpo da kitsune foi transformado em pedra e passou a ser chamado de Sessho-Seki “A pedra da matança”. Qualquer criatura viva que entrasse em contato com ela morria imediatamente. Tamamo-no-Mae tinha se transformado em Hoji, de tão poderoso que era o mal dessa raposa. Seu espírito assombrou a pedra por tempos, até que um dia, o Sagrado Monge budista Genno, parou para descansar debaixo da pedra e foi assombrado por Hoji. Ele recitou as orações sagradas de Buda e conseguiu finalmente exorcizar a pedra Sesso-Seki.

Nos dias atuais, a província de Nasu tem como ponto turístico a planície onde dizem ser o local em que Tamamo-no-Mae morrera.

Ono e a Kitsune do Pântano
Existe uma lenda de kitsune, considerada uma das mais antigas estórias a seu respeito. Porém, dizem tratar-se de uma lenda falsa, no entanto, qual lenda pode-se afirmar verdadeira? Ainda mais por tratar-se de uma das lendas mais antigas sobre kitsune. Em fim, vamos a ela.

Ono, um habitante de Mino, passou muito tempo ansiando encontrar uma mulher com a beleza que ele considerava ideal. Um dia, quando andava no pântano, encontrou uma linda mulher, logo se apaixonou e acabou casando-se com ela. Assim que nasceu seu filho, o homem resolveu criar um cachorrinho. O animal, no entanto, à medida que crescia ficava mais hostil com a esposa. Por diversas vezes ela implorava para  que o marido o mata-se, mas ele sempre se recusava por gostar demais do animal. Um dia o cão a atacou com tanta ferocidade que ela involuntariamente retornou a sua forma original de raposa e fugiu.

Enquanto a raposa corria desesperada, Ono gritou para ela: “Você pode ser uma raposa, mas é a mãe de meu filho e eu te amo. Volte sempre que quiser, você será sempre bem vinda”.

Assim, toda noite ela voltava para os braços de Ono. A kitsune retornava à noite como humana e de dia deixava a casa como raposa, ela foi apelidada de Kitsune, que em japonês clássico é “kitsu-ne” (venha e durma) e ki-tsune (venha sempre).

Kitsune na cultura popular japonesa

Incorporado no folclore Japonês como elas são, kitsunes aparecem em numerosas peças dos quatro principais teatros tradicionais do Japão (No, kyogen, bunraku e kabuki) – obras criadas a partir de contos populares

Kitsunes também são usadas em obras contemporâneas, tais como filmes, animes (desenho animados japoneses), mangás (desenho em quadrinhos japoneses) e games. A aparição mais famosa de uma kitsune em anime acorreu no mangá/anime Naruto, no qual ela figura como uma Kyuubi no Kitsune, ou seja, raposa de nove caudas, que vive selada dentro do personagem principal.

Aparição de Kyuubi no Kitsune no anime Naruto (Foto: Reprodução)

Aparição de Kyuubi no Kitsune no anime Naruto (Foto: Reprodução)

Alguns ídolos de bandas musicais japonesas usam mitos sobre as kitsunes em suas letras, e incluem o uso de máscaras de raposas, sinais de mão e interlúdios de animação durante os shows ao vivo.

Mediante isso, esse personagem é considerado o mais popular do folclore/mitologia japonesa.

Por Maria Rosa (Artigo criado originalmente em 2006)
Fontes principais de pesquisa:
• Livro: Legends of Japan | Author: F. Hadland Davis
• Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
• Dicionário: Shogakukan – Dicionário Universal Japonês-Português | Autor: Jaime Coelho | Editora: Shogakukan

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