Mitos e Lendas

Folclore japonês: Shojo e a natureza de seu sagrado saquê

Contam que o saquê de Shojo é sagrado, capaz de devolver a saúde e a vida aos seres humanos.

Atualizando em 07/02/2017 – 16h54


O abastado folclore japonês não poderia deixar de abranger histórias envolvendo a bebida nacional do Japão, ou seja, o “saquê” (sake). No país, há uma infinidade de contos relacionados à tradicional bebida, a maioria relata sobre criaturas, animais, deuses, heróis, guerreiros, entre outros, que simplesmente o veneram. Uma delas é o “Shojo”, uma criatura sobrenatural que é louca pelo precioso líquido, do qual pode tomar enormes quantidades.

No Japão, pessoas que bebem muito comumente são apelidadas de Shojo. Essa denominação é porque, geralmente, as lendas sobre essa criatura são relacionadas ao saquê.

Feito principalmente a partir do arroz, o saquê é uma bebida fermentada, fabricada por meio das leveduras e de um micro-organismo chamado koji. É tido como o “vinho japonês”.

A aparência de Shojo é bastante variada, depende da região onde seus contos são narrados. A mais comum retrata Shojo com longos cabelos ruivos e pele rosada. Suas vestes também variam, pode ser descrito vestindo apenas uma espécie de sarongue feito de algas ou em finos trajes.

Diz-se que o orangotango tem uma forte ligação com o Shojo. Também existe a crença de que essa espécie de macaco surgiu ou evoluiu a partir do Shojo. Entretanto, na mitologia chinesa, onde o Shojo tem sua origem, é dito que a criatura pode se manifestar na forma de um macaco dessa espécie. A maioria das lendas chinesas descrevem Shojo com o corpo amplamente coberto por pelos vermelhos.

Lendas chinesas descrevem Shojo com o corpo coberto por pelos vermelhos (Foto: Reprodução/Livro Lendas Asiáticas)

Lendas chinesas descrevem Shojo com o corpo coberto por pelos vermelhos (Foto: Reprodução/Livro Lendas Asiáticas)

Shojo também é o personagem de uma importante e antiga peça encenada por artistas do teatro “No” (pode ser escrito como Nō, Nô, Nou, Noh ou ainda Nogaku), uma forma clássica de teatro tradicional japonês, com mais de quinhentos anos de existência.

Shojo encenado por artistas de teatro No (Fotos: Aflo Images)

Shojo encenado por artistas de teatro No (Fotos: Aflo Images)

Shojo e a natureza de sua bebida favorita
Contam que o Monte Fuji, em tempos longínquos, surgiu miraculosamente da noite para o dia. Pois bem, no dia seguinte a este acontecimento, um pobre homem chamado Yurine, que morava nas imediações da montanha, ficou gravemente doente e, sentindo que seus dias estavam contados, desejou tomar uma xícara de saquê antes de morrer.

Em sua pequena cabana, porém, não havia vinho de arroz e seu filho, Koyuri, desejando satisfazer o último desejo do pai, pôs-se a percorrer a praia local carregando uma abóbora na mão.

Não havia caminhado muito quando ouviu que alguém o chamava e, olhando ao redor, viu duas criaturas de aspecto estranho. Os dois tinham longos cabelos vermelhos e a pele rosada como uma flor de cerejeira. Embora vestidos em finos trajes, ostentavam uma faixa de verdes algas marinhas ao redor da cintura. Chegando perto, viu que essas criaturas estavam tomando saquê branco em grandes xícaras que eles enchiam continuamente.

“Meu pai está morrendo e deseja muito beber uma xícara de saquê antes de partir desse mundo. Mas, infelizmente, somos pobres e não sei como satisfazer esse seu último pedido”, disse o jovem.

“Vou encher sua abóbora com este saquê branco”, disse uma das criaturas e, isso feito, Koyuri correu para junto de seu pai.

O velho tomou o saquê avidamente e disse: “Traga-me mais, pois este saquê não é um vinho de arroz comum. Deu-me forças e já sinto uma nova vida percorrer minhas velhas veias”.

Koyuri voltou então à praia e as criaturas ruivas com muita satisfação lhe deram mais vinho. Na verdade, lhe deram vinho para cinco dias, dos quais findados, Yurine ficou cheio de vida.

Yurine tinha chamado um vizinho, Mamikiko, que por sua vez sentiu uma enorme inveja quando soube da quantidade de saquê que Yurine ganhara, pois saquê era a coisa que mais ele gostava na vida.

Um dia, Mamikiko chamou Koyuri e disse: “Deixe-me provar o saquê”. Tirou a abóbora da mão do rapaz e começou a beber o líquido que adorava. Enquanto bebia, no entanto, começou a fazer uma cara feia.

“Isto não é saquê, é água suja”, exclamou enraivecido, e se pôs a bater no rapaz, gritando: “Leve-me até essa gente de cabelo vermelho de que você me falou. Eu obterei saquê com eles e que essa surra lhe sirva de amostra para que nunca mais tente me enganar”.

Koyuri e Mamikiko seguiram pela praia e chegaram ao local em que as criaturas de cabelo vermelho se encontravam bebendo avidamente o sagrado saquê. Ao vê-los, Koyuri começou a chorar.

“Por que você está chorando?”, perguntou uma das criaturas. “Com toda certeza seu pai não acabou com todo o saquê que lhe demos…”.

“Não”, respondeu o rapaz. “Mas algo de muito ruim aconteceu. Este homem que está aqui comigo bebeu um pouco do saquê e imediatamente cuspiu-o, jogou o resto fora, dizendo que eu o havia enganado, dando-lhe, em vez de saquê, água suja. Por favor, sejam generosos e me deem mais um pouco de saquê para eu levar ao meu pai”.

A criatura de cabelo vermelho encheu a abóbora de Koyuri e se divertiu muito com a experiência desagradável por que passara Mamikiko.

“Eu também gostaria de uma xícara de saquê”, disse Mamikiko. “Vocês me dariam um pouco?”.

“Sim”, disseram as criaturas. Então o ganancioso Mamikiko encheu a maior xícara que encontrou, sorrindo ante a deliciosa fragrância que exalava o saquê do Shojo. Mas, assim que experimentou, sentiu-se mal e reclamou indignado.

A criatura então respondeu: “Evidentemente, você não tem noção de que eu sou um Shojo e moro perto do Palácio do Dragão do Mar. Quando eu fiquei sabendo da súbita aparição do Monte Fuji vim cá ver, certo de que esse fato representava um bom augúrio e prenúncio da prosperidade e eternidade do Japão. Enquanto apreciava a beleza dessa montanha, conhecemos Koyuri e tivemos a oportunidade de salvar a vida do seu honesto pai, dando-lhe um pouco do nosso sagrado saquê branco que devolve à saúde, a vida e o bem-estar aos seres humanos, mesmo com o avançar dos anos. O pai de Koyuri é um bom homem e o saquê pode lhe proporcionar um grande benefício. Você, porém, é uma pessoa egoísta e invejosa, e para gente assim este saquê é um veneno”.

“Veneno?”, gemeu Mamikiko profundamente arrependido. “Bondoso Shojo, tenha piedade de mim e poupe minha vida!”.

O Shojo entregou-lhe um pó e disse: “Misture este pó no saquê e beba. E arrependa-se de suas maldades”.

Mamikiko assim o fez e, dessa vez, achou o saquê delicioso. Não perdeu tempo para tornar-se amigo de Yurine. Anos mais tarde, fixaram morada no lado sul do Monte Fuji e, tomando sempre o saquê branco do Shojo, chegaram a viver trezentos anos.

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2009)
Principais fontes de pesquisa
• Livro: Legends of Japan | Author: F. Hadland Davis
• Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
• Agência: Aflo Imagens

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