Guia Cultural

Brasileiro lança iBook sobre o pós-11 de março no Japão

Radicado no Japão desde 2005, Maxwell levou sua câmera atenta para as regiões afetadas pelo tsunami um ano depois da tragédia.

“A resiliência da próxima geração depende dos cidadãos e das comunidades, não das instituições do Estado.”

 

Kome Livro (Foto: divulgação)

Kome Livro (Foto: divulgação)

É com esta frase do autor Charlie Edwards que o fotógrafo e documentarista Roberto Maxwell abre seu recém lançado iBook “Kome – A Reconstrução dos Laços Comunitários no Japão Pós 11 de Março”. Radicado no Japão desde 2005, Maxwell levou sua câmera atenta para as regiões afetadas pelo tsunami um ano depois da tragédia que dizimou mais de 16000 vidas e deixou prejuízos na casa dos bilhões de dólares. O livro está disponível gratuitamente pelo iBookstore, somente em formato para iPad e iPad Mini.

“Percebi que a mídia internacional estava negligenciando um fato: a reconstrução das vida em comunidade”, conta o autor. “Nas visitas”, prossegue ele, “fui percebendo que as pessoas estavam repensando sua relação com outro, com o vizinho, de forma muito profunda”.

Foram diversas viagens que geraram material fotográfico e três documentários em vídeo, além de diversos outros registros. “As fotografias”, explica, “representam instantâneos daquele momento, um ano depois. O mundo ficou surpreso com a capacidade de organização dos japoneses, na limpeza e na reconstrução, queria retratar isso mas de uma forma mais realista. Ainda há muito a ser feito”.

Já os documentários em vídeo, propõem uma análise do processo de reconstrução das comunidades. São, como diz o autor, “a vida em movimento”. Os vídeos foram gravados em três cidades diferentes.

Em Ishinomaki, uma das cidades mais devastadas pelo tsunami na província de Miyagi, o autor encontrou o grafiteiro brasileiro Titi Freak atuando como voluntário. “Ele levou as cores de sua arte para um interessante diálogo com os moradores. Em ‘Kome’, o Titi representa todos os estrangeiros que doaram seu tempo e seus conhecimentos para aliviar a dor dos que perderam tudo”, explica Maxwell.

Na pequena vila de Shibitachi, também em Miyagi, o autor conheceu Shintaro Suzuki, um senhor que mantêm uma tradição familiar: ajudar as vítimas de grandes tragédias usando um ‘kama’, uma grande e antiga caldeira, parte da propriedade da família. Suzuki, como seus antepassados, fornece água quente aos que perderam tudo. “Essa água”, conta o senhor, num dos textos do livro, “aquece não somente o corpo mas, também, o coração”. “O senhor Suzuki”, explica Maxwell, “me mostrou a importância da transmissão de conhecimentos entre as gerações no caso de grandes tragédias. Esse conhecimento acumulado salva vidas e mantêm os laços comunitários”.

Já em Sendai, capital de Miyagi e a maior das cidades atingidas pela onda gigante, o encontro foi com Shoji Yamada e com os moradores de um dos inúmeros conjuntos de residências temporárias usados para abrigar as vítimas. O autor conta que foi lá que o projeto ganhou forma. “Registrei os moradores produzindo o mochi (lê-se ‘moti’)”, relembra ele. O mochi é um bolinho de arroz batido em um pesado pilão e, segundo Maxwell, uma comida para ser feita em grupo. “Preparar o mochi é uma atividade coletiva e eu fui percebendo, durante o preparo, como as pessoas vão se conectando umas às outras. Repetimos essa experiência numa galeria em Tóquio, num trabalho coletivo que fiz e, depois, durante a exposição em São Paulo. O mochi aglutina as pessoas”, conta. Da experiência, também, veio o nome do trabalho, ‘Kome’, que quer dizer ‘arroz’.

 

Análise

A última parte do iBook se dedica a analisar o acidente nuclear e seu primeiro impacto na sociedade japonesa. O autor se dedica a explicar o renascimento dos movimentos antinucleares. “O Japão, neste momento, é um país de movimentos sociais ainda muito pequenos. Mas, depois do acidente nuclear, o que vimos foi um reforço muito grande no engajamento. De certo modo, vejo essa resposta, em especial em cidades grandes que não foram atingidas pelo vazamento de material radioativo, como uma tentativa, também, de reconstrução de laços e processos de ação coletiva, comunitária”, coloca ele.

Parte do material contido no iBook foi visto em São Paulo, Recife e Porto Alegre entre julho e setembro do ano passado. Foi a primeira vez que Maxwell voltou ao Brasil depois de quase sete anos no Japão. “A exposição foi uma experiência ótima e, até por isso, senti a necessidade de aprofundar o tema e surgiu o iBook”. Para a obra digital, o autor reuniu material que ficara de fora da exposição.

Juntar numa mesma obra texto, fotos, sons e vídeos foi um desafio. “As coisas estão conectadas e, por isso, tinham que fazer parte da mesma plataforma. Ter a possibilidade de lançar esse material de forma integrada, para apreciação contínua, é algo que só a tecnologia dos tabletes pode proporcionar. Por isso, a escolha pelo formato digital”, explica o autor.

“Quero que, à medida do possível, muita gente tenha acesso ao trabalho. O iBook é uma novidade no Brasil. Existem pouquíssimos em português. É para atrair mesmo; para apresentar o formato ao público brasileiro, que adora tecnologias e coisas novas”, completa Maxwell.

 

Serviço

“Kome – A Reconstrução dos Laços Comunitários no Japão Pós 11 de Março” 

autor: Roberto Maxwell

formato: iBook

número de páginas: 69

conteúdo: textos, fotos, vídeos e áudio

preço: gratuito

link para download: https://itunes.apple.com/us/book/kome/id598570032?ls=1

O download é feito pela iBookstore. O livro está disponível apenas para iPad e iPad Mini.

 

Trailer

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=yOAvHVhU_Bc

Site do livro

http://maxwellroberto.wix.com/roberto-maxwell

 

Imprensa

[Fundação Japão em São Paulo l Tinta Edições de Arte l Roberto Maxwell l Kaikai Kiki Gallery (NYC]

Erico Marmiroli

11 3205.0656

11 9 9372.7774

erico.marmiroli@gmail.com

 

Kome, uma experiência

por Vicente Amorim

Diretor do filme ‘Corações Sujos’ estava no Japão no dia do Grande Terremoto 

 

“Estima-se que todo japonês vá viver pelo menos uma tragédia natural em sua vida”, nos ensina Roberto Maxwell em seu livro Kome.  Roberto, que é escritor, videomaker e fotógrafo, vive há quase uma década no Japão.  Já eu estava no Japão há seis dias quando, saindo da estação de Shibuya, no coração de Tóquio, no dia 11 de março de 2011, fui uma das testemunhas de um dos maiores terremotos da história.

Eu estava mostrando para distribuidores de cinema locais meu filme Corações Sujos, que conta uma tragédia japonesa em solo brasileiro nos anos 40. Sentia-me bem versado em cultura japonesa depois de cinco anos de pesquisa para o roteiro do filme.  Naquele dia, olhando em volta, descobri que mal tinha arranhado a superfície.

As marcas de um evento tão único não nos deixam e, mesmo tendo sido parte dele, entender como a sociedade japonesa reagiu e recuperou-se é difícil. Pensei muito sobre o assunto, contei minha experiência para a família, amigos e curiosos e escrevi sobre ela na internet, mas algo me escapava.

Em Kome, Roberto Maxwell captura o que me escapou. Ele organiza de forma simples e poética suas experiências nos cenários principais do que aconteceu no Japão no dia 11 de março de 2011 e, especialmente, daquele dia em diante.

As suas fotografias e vídeos são muito mais que ilustrações para suas impressões, para seu texto. Com eles, Roberto nos coloca ao seu lado, nos sintoniza com sua sensibilidade e nos ajuda a interpretar o que ele viu e sentiu: cenários de tragédia, histórias de mudança radical, de tristeza, mas de superação, de beleza e alegria intensas também. Kome é seu testemunho, livre e poético, organizado com seriedade antropológica, mas sem caretice – como são vários de seus “vagares” presentes em vídeo na obra.

Este não é um livro de conclusões e teses; ele encadeia, com cuidado e beleza, o quotidiano, pra nós misterioso, daqueles que viveram a maior tragédia de uma geração e que, agora, refazem a vida. É, aliás, emocionante como um livro sobre um evento que deixou dezenas de milhares de mortos pode ser tão fundamentalmente sobre a vida.

Kome é muito mais que um livro – é uma experiência.

 

Vicente Amorim

diretor e produtor de cinema

 

 

Créditos: Reprodução (livro)

© Roberto Maxwell (retratos e uso do e-book)

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