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Mostra de arte da vanguarda japonesa termina neste domingo no Rio

Divulgação

A mostra gratuita apresenta obras de artistas japoneses consagrados, com trabalhos do período entre 1950 a 1970.

Promovida peça Fundação Japão e Paço Imperial do Rio de Janeiro, a exposição “A Emergência do Contemporâneo: A Vanguarda no Japão, 1950-1970” termina neste domingo (28). A mostra, apresentada pela primeira vez no Brasil e que teve início no dia 4 de julho, tem curadoria de Pedro Erber e colaboração de Katsuo Suzuki, curador do Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio.

A exposição reúne fotografias, filmes e documentos históricos, com obras representativas da arte japonesa do pós-guerra, incluindo trabalhos dos coletivos Gutai (Atsuko Tanaka, Sadamasa Motonaga, Kazuo Shiraga), Hi-Red Center (Genpei Akasegawa, Jiro Takamatsu e Natsuyuki Nakanishi), e Jikken Kobo (Katsuhiro Yamaguchi e Shozo Kitadai), dos pintores Tatsuo Ikeda e Hiroshi Nakamura, a poesia concreta de Katue Kitasono e Seiichi Niikuni, a arte conceitual de Yoko Ono e Yutaka Matsuzawa, e fotografias de Mitsutoshi Hanaga, que acompanhou de perto e documentou a atividade dos grupos de vanguarda no Japão dos anos 60.

“Na contramão do exotismo, a vanguarda japonesa do pós-guerra surpreende por sua afinidade e contemporaneidade com o percurso da arte brasileira. Por outro lado, nas ressonâncias e recorrências entre 1964 e 2016, entre os Jogos Olímpicos de outrora e as atuais, revela-se, ainda, um outro sentido do contemporâneo, em que a criatividade radical e o ímpeto de intervenção social da vanguarda japonesa ecoam aqui e agora”, afirma o curador Pedro Erber.

A exposição é uma realização do Paço Imperial e da Fundação Japão, que também oferece o apoio logístico e financeiro para a mostra. Conta com o apoio especial da Ishibashi Foundation e Lufthansa Cargo AG, e produção da Base 7.

OBRAS ESPECIAIS
A Emergência do Contemporâneo inclui quatro obras que serão realizadas no próprio local: uma instalação em larga escala de Kishio Suga (do coletivo Mono-ha); uma obra envolvendo participação do público, baseada em trabalho de 1964 do arquiteto Arata Isozaki; uma instalação de Sadamasa Motonaga e uma performance inspirada em trabalho do grupo Hi-Red Center durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, que será realizada por artistas brasileiros e adaptada ao contexto no evento do Rio de Janeiro, este ano.

Perímetro de Tendências Críticas, de Kishio Suga
Valendo-se de materiais básicos, tanto naturais como industrializados, como madeira, pedra e metal, Kishio Suga, um dos membros originais do coletivo Mono-ha, segue uma trajetória experimental, que combina sofisticação teórica com a ênfase na materialidade da obra de arte.

Processo de Incubação, de Arata Isozaki
Arata Isozaki, um dos mais reconhecidos arquitetos da atualidade, combinou desde o início de sua carreira a prática da arquitetura com suas atividades no contexto da vanguarda artística. Em Processo de incubação, o público foi convidado a participar da construção de uma cidade orgânica e caótica, que cresce de acordo com a metáfora biológica do título da obra. Processo de Incubação consiste em uma imensa foto de satélite do Rio de Janeiro, sobre a qual o público colocou pregos e arames até 23 de junho, quando foi despejado um balde de gesso sobre a composição final. Assim, recriou-se a obra original de Isozaki, mas substituindo a imagem original de Tóquio por uma do Rio de Janeiro.

Instalação de Sadamasa Motonaga
A Instalação de Sadamasa Motonaga, que foi membro do coletivo de vanguarda Gutai, consiste em grandes recipientes de vinil, presos às paredes do museu com redes, contendo água com pigmento colorido. Uma versão desta obra foi instalada no vão central do Museu Guggenheim, em Nova Iorque, durante a grande retrospectiva do Grupo Gutai, em 2010. A instalação será adaptada ao Paço, levando em conta o ambiente e a luz locais.

Performance inspirada em Hi-Red Center
Em 1964, por ocasião os Jogos Olímpicos de Tóquio, o grupo Hi-Red Center organizou a performance Campanha para a promoção da limpeza e da ordem na cidade, que parodiava a obsessão com a limpeza e a modernização. Membros do grupo equipados de máscaras cirúrgicas, escovas de dente e outros materiais inusitados limparam cuidadosamente a calçada de um uma rua movimentada no bairro de Ginza, no centro de Tóquio. Fotógrafos registraram o evento e as reações curiosas dos passantes, que não haviam sido alertados que se tratava de uma performance artística.

ARTISTAS JAPONESES
Arata Isozaki, Oita (1931)
Sua visão de ruínas futuras, evoluindo de um plano urbanístico derivado de sua própria experiência de devastação da guerra, influenciou seus trabalhos. O artista imaginava que esse era o destino imprevisível e irreversível da cidade de Tóquio. Incorporou, ainda, ruínas em seus desenhos de cidades que se proliferavam no ar.

Atsuko Tanaka, Osaka (1932-2005)
Deixou a Escola Municipal Especial de Kyoto de pintura para estudar no Instituto Municipal de Arte de Osaka, onde entrou em contato com os membros da Zero-kai. Na primeira Exposição de Arte de Gutai, apresentou Bell (Beru, 1955), uma obra com sinos mecânicos que reagiam após o público pressionar um botão. Incorporou novamente eletricidade em seu trabalho, em 1956, com a obra Electric Dress.

Genpei Akasegawa, Kanagawa (1937-2015)
Também parte do grupo Neo Dada, experimentou o fim da guerra em Oita. Participou do Art T Escola de Musashino, em 1957, ainda estudante, quando começou a se revelar, tanto no Japão como nas exposições Yomiuri independente. Em seus primeiros trabalhos, explorou maneiras de “agitar” e “white out” o dia a dia em Tóquio e como a cidade se transformou rapidamente com o crescimento econômico após o fiasco do ANPO.

Hideko Fukushima, Tóquio (1927 -1997)
Participou de oficinas e atividades em grupo com Yamaguchi e Kitadai, a quem apresentou seu irmão mais novo, o compositor Kazuo Fukushima, e vários dos músicos contemporâneos em seu círculo. Criaram muitas aquarelas e utilizaram selos feitos de bambu cortado e objetos cotidianos, implantado técnicas surrealistas.

Hiroshi Katsuragawa, Hokkaido (1924 – 2011)
Pintava obras que abordavam questões sociais e foi membro da sanson kosakutai. Depois de servir brevemente o serviço militar, frequentou a Escola Especial Tama Art e se juntou a Seiki (Century), um grupo de vanguarda, que contou com Kobo Abe e outras figuras literárias. Katsuragawa trabalhou na publicação e ilustração de revista do grupo, ao mesmo tempo participando do movimento de cultura do Japão, cuja missão era iluminar as classes trabalhadoras através da arte e da cultura. Em 1953, participou na fundação do Seinen Bijutsuka Rengo (união do artista Young), que tentou consolidar as forças de pequenos grupos de esquerda. Katsuragawa também trabalhou na organização da Nippon e realizava colagens satíricas.

Hiroshi Nakamura, Shizuoka (1932)
Era um membro da Zen’ei Bijutsu-kai. Nakamura esteve ativamente envolvido com grupos de artistas e movimentos sociais. Ainda na escola, se juntou a Seinen Bijutsuka Rengo e exibiu obras pintadas à maneira de gekiga (romances gráficos japonês). Estudou montagem e teoria de montagem em Sergei Eisenstein e filmes de Kurosawa Akira, tomando emprestado algumas de suas técnicas em suas composições e criando um estilo distinto de espaço perspectivo distorcido, que na década de 60 se tornaria o “efeito de lente”, pelo qual se tornou bem conhecido.

Jiro Takamatsu, Tóquio (1936-1998)
Foi colega de Nakanishi no departamento de pintura da Tokyo University of the Arts, em 1950. Após a formatura, mostrou pinturas na exposição Yomiuri independente. Em 1962, apresentou trabalhos baseados em strings, como Polar Plasm eCadeia: Black; que fizeram parte de uma série contínua. No mesmo ano, Takamatsu voltou a trabalhar com Nakanishi e, juntos, organizaram a Linha de Incidentes. O evento foi destaque na revista Keisho, à época sob a direção de Yoshihiro Imaizume (1931-2010).

Katsuhiro Yamaguchi, Tóquio (1928)
Participou de oficinas do Nihon Avangyarudo Bijutuska Kurabu (clube do artista de vanguarda do Japão), liderado por Taro Okamoto, Nobuya Abe, e outros, e juntou-se a Avangyarudo Geijutsu Kenkyukai enquanto estudava direito da Universidade Nihon (formou-se em 1951). Nestas oficinas, conheceu Shozo Kitadai e Hideko Fukushima. Frequentando a CIE Biblioteca, se deparou com Kuniharu Akiyama (1929-1996), que estava pesquisando a música contemporânea. Juntos, foram os precursores para a fundação da Jikken Kobo.

Kazuo Shiraga, Hyogo (1924 -2008)
Após a guerra, retornou e se formou no Municipal Art Institute Osaka e começou a pintar com óleos, mostrando seu trabalho nas exposições Shinseisaku, de 1950 a 1954. Depois de ingressar no Zero-kai, começou a aplicar a pintura diretamente para a tela com as palmas das mãos e dedos, e logo começou a usar também os pés. Como membro da Gutai, Shiraga realizou o Mud Challenging (Doro idomu ni, de 1955;. P 46, fig. 7) na primeira exposição de arte Gutai. Com o objetivo de reexaminar fundamentalmente o ato de pintar, Shiraga considerava como “matéria” seu corpo e constituição pessoal, juntamente com o seu trabalho e materiais. Seguiu criando pinturas poderosas com os pés para o resto de sua vida.

Kishio Suga, Iwate (1944)
Ganhou um prêmio da revista Bijutsu, em 1969, por sua escrita crítica, e logo depois mudou de direção artística ao que pode ser descrito como anti-forma radical. Um artista prolífico, Suga cria relações entre materiais, como pedras, madeira e areia, que são apresentados com a manipulação minimai.

Minoru Hirata, Tóquio (1930)
Fotografou ativamente as performances do grupo de artistas de vanguarda da época. Na década de 30, se juntou à equipe de Nippon Kobo. Participou da fundação da Nissenbi, cujo objetivo era promover designers a se juntar e introduzir o trabalho desses designers, como Sugiura e Awazu, gerando uma nova abordagem: “projeto por causa do projeto”, do mundo de gráficos. Kamekura projetou os cartazes para os Jogos Olímpicos de 1964 de Tóquio e os logotipos para Expo’70. Permaneceu na vanguarda do design gráfico no Japão até o final de sua vida.

Natsuyuki Nakanishi, Tóquio (1935)
Formado na Universidade de Tóquio das Artes (1958), onde estudou pintura e começou a apresentar o seu trabalho em exposições individuais em galerias. Sua série Rhyme ganhou menção honrosa em 1959, na Exposição de Arte Shell, no Museu de Arte Moderna de Kanagawa. Feitas com areia e esmalte em placa de contraplacado, as obras da série consistem de formas que evocam tanto as placas e as entranhas orgânicas do corpo. O trabalho de Nakanishi evoluiu para objetos compactos no início dos anos 60.

Sadamasa Motonaga, Mie (1922-2011)
Aprendeu sozinho mangá e pintura e foi aceito no Ashiya Exposição City (Ashiya-shi dez), em 1953. Dois anos mais tarde, na Exposição Experimental ao ar livre de Arte Moderna, realizada no Ashiya Park, ele apresentou Liqued, Red e, mais tarde, no mesmo ano, na primeira exposição do grupo em Tóquio, mostrou Work (Water), no qual encheu sacos de plástico com água colorida e suspendeu-os. Posteriormente, adotou a técnica de gotejamento de tinta sobre tela e experimentou a “meta-pintura”, permitindo descascar algumas de suas pinturas. Seu trabalho, assim, constitui uma tendência para o conceitualismo com uma abertura ao acidente e uma rejeição da composição formal, intencional.

Tatsuo Ikeda, Saga (1928-1956)
Foi um dos artistas que se beneficiou de juntar grupos de estudo relacionadas com Okamoto. Treinado como um piloto camicase, no final da guerra, estudou por um período na Tama Art School Special, durante o qual se juntou a Seiki e Avangyarudo Geijutsu Kenkyukai (Avant-garde artes grupo de estudo) e também a Seinen Bijutsuka Rengo. Juntamente com On Kawara, fotógrafo Narahara lkko e vários estudiosos de cinema, Ikeda fundou a Seisakusha Kondankai (grupo de discussão), em 1955. O grupo abraçou o realismo subjetivo e concebido de filme como uma forma de arte “total”. Sua carreira foi interrompida por sua morte, aos 28 anos.

Curador
O brasileiro Pedro Erber é professor associado do departamento de Romance Studies, da Cornell University, em Ithaca, Nova Iorque (Estados Unidos). Atuou como professor assistente na Rutgers University (Estados Unidos), entre 2009 e 2011, na Cornell University, entre 2011 e 2015, como pesquisador visitante na Universidade Rikkyo, em Tóquio, de 2005 a 2006, e na Universidade Waseda, em Tóquio, de 2015 a 2016. Graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1997; concluiu o mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 2000 e, após dois anos como pesquisador na Universidade de Tóquio, concluiu o Ph.D. em Literatura Asiática, com o tema da arte de vanguarda no Brasil e no Japão, em 2009. Possui diversas publicações e artigos em revistas acadêmicas, catálogos e livros e tem dois livros publicados: Breaching the Frame:The Rise of Contemporary Art in Brazil and Japan (University of California Press, 2015) e Política e Verdade no Pensamento de Martin Heidegger (São Paulo: Editora P.U.C.–Rio/Edições Loyola, 2003).

SERVIÇO
Exposição: A Emergência do Contemporâneo: A Vanguarda no Japão, 1950-1970
Local/Endereço: Paço Imperial – Praça Quinze de Novembro, 48 – Centro, Rio de Janeiro – RJ
Horários: de terça a domingo das 11h às 19h
Entrada: Gratuita
Mais informações: (21) 2220-2991

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