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Filha de herdeiro do trono do Japão se casa com plebeu e deixa realeza

©Kyodo

União foi marcada por uma cerimônia incomum, sem pompa, consumada apenas pela assinatura do registro oficial de casamento.

A princesa Mako, sobrinha do imperador do Japão e filha mais velha do príncipe herdeiro do trono japonês, abdicou de seu título real ao se casar nesta terça-feira (26) com o namorado de faculdade, o plebeu Kei Komuro, em uma cerimônia discreta depois de um noivado marcado por polêmicas.

A união foi marcada por uma cerimônia incomum, sem nenhuma pompa, sendo consumada apenas pela assinatura do registro oficial do casamento por volta das 11 horas local de quarta-feira (23 horas de segunda-feira no Brasil).

Mais incomum ainda foi a sinceridade de Mako na coletiva de imprensa no Grand Arc Hotel em Tóquio, após a consumação da união com Komuro. Agora, na condição de ex-princesa do Japão, Mako disse que seu casamento com Komuro foi inevitável, apesar da ampla oposição a ele.

No início deste ano, a filha mais velha do príncipe herdeiro Fumihito (Príncipe de Akishino), irmão mais novo do imperador Naruhito, foi diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) em razão de seu noivado assolado por um escândalo financeiro, uma intensa investigação da mídia e uma separação de três anos do noivo.

“Kei é insubstituível para mim. Para nós, o casamento é uma escolha necessária para viver estimando nossos corações”, disse Mako na coletiva de imprensa.

Ela disse ainda que reportagens “incorretas” sobre seu novo marido lhe causaram “muito medo, tensão e tristeza”.

“O fluxo de críticas arbitrárias às ações de Kei, além de uma especulação unilateral que ignorou meus sentimentos, fez falsidades de alguma forma parecerem a realidade e se tornarem uma história não-provocada que se espalhou”, acrescentou ela.

Os dois jovens, ambos com 30 anos de idade, se casaram pela manhã, depois de uma autoridade da Agência da Casa Imperial apresentar documentos a um cartório local que registrou o matrimônio.

Os casamentos reais geralmente envolvem uma série de cerimônias formais e uma celebração repleta de pompa, mas os dois renunciaram a todos os rituais, inclusive a soma de US$ 1,3 milhão normalmente dado às mulheres que são obrigadas a deixar a família imperial japonesa em razão de casamento com alguém que não pertence a realeza japonesa.

Durante a entrevista coletiva, Komuro se comprometeu a proteger e apoiar Mako. “Eu amo Mako. Eu quero passar a única vida que tenho ao lado de quem eu amo”, disse ele.

A princesa Mako se recusou a falar sobre sua nova vida com Komuro em Nova York, para onde ela deve se mudar no próximo mês.

Depois da oficialização do casamento, os pais da princesa Mako disseram em um comunicado que o casamento de sua filha mais velha era “sem precedentes para a família imperial”, acrescentando que esperam que ela construa “uma família feliz”.

A princesa, que deixou a residência imperial de sua família na propriedade Akasaka, em Tóquio, na terça-feira de manhã, e Komuro se dirigiram para um condomínio em Tóquio após a entrevista coletiva. Eles devem ficar por lá enquanto se preparam para uma nova vida em Nova Iorque.

Mako perdeu seu status real porque a Lei da Casa Imperial estipula que um membro imperial feminino deve abandonar seu título se contrair matrimônio com um plebeu. A agência vai registrar sua saída no registro da linhagem imperial nesta quarta-feira (27).

Despedida

Usando um vestido verde claro e segurando um buquê de flores, a princesa Mako curvou-se várias vezes para seus pais e sua irmã mais nova, a princesa Kako, de 26 anos, quando ela deixou a residência em Tóquio por volta das 10h locais de quarta-feira.

Mako faz reverencia ao deixar a residência de sua família na propriedade Akasaka, em Tóquio | Foto: Reprodução/Kyodo

As irmãs se abraçaram antes que a princesa Mako entrasse no carro e partisse para um hotel em Tóquio para receber a imprensa com seu marido, enquanto sua família acenava até que ela sumisse de vista.

Mako é abraçada fortemente por sua irmã mais nova, a princesa Kako | Foto: Reprodução/Kyodo

Como os membros da família imperial japonesa não têm passaportes, a princesa precisa solicitar o dela como cidadã comum. Ela deve partir para os Estados Unidos no mês que vem.

Embora os membros femininos da família real tradicionalmente recebam um pagamento fixo de até 150 milhões de ienes (cerca de US$ 1,3 milhão), que são retirados dos cofres fiscais do país, após sua saída da Casa Imperial, a agência disse que aceitou o pedido da princesa Mako em recusar o dote.

Noivado conturbado

Em maio de 2017, Mako e Komuro anunciaram o noivado em uma coletiva de imprensa, onde os sorrisos trocados conquistaram os corações da nação. O clima de felicidade, porém, logo desandou quando os tablóides noticiaram um escândalo financeiro envolvendo a mãe de Komuro, levando a imprensa japonesa a se voltar contra ele.

A mídia relatou uma disputa financeira entre a mãe de Komuro e o ex-noivo dela. O homem alegou que mãe e filho não haviam pago uma dívida de mais de 4 milhões de ienes, o que inclui o dinheiro gasto na educação de Komuro.

O escândalo potencializou depois que a Agência da Casa Imperial não forneceu uma explicação clara à população japonesa.

Komuro disse durante a coletiva de imprensa que ofereceu um acordo ao ex-noivo da mãe e estava trabalhando em uma solução, após emitir um comunicado de 28 páginas sobre o assunto em abril deste ano.

Recentemente, cerca de cem pessoas se reuniram em um parque de Tóquio para protestar contra o casamento. As pesquisas de opinião pública mostram que o povo japonês está dividido.

Três anos sem contato pessoal

Mako e Komuro se reencontraram pessoalmente na semana passada, pela primeira vez desde que o jovem partiu em agosto de 2018 para Nova Iorque, onde cursou Direito na Fordham University. Ele se formou em maio deste ano e já está trabalhando em um renomado escritório de advocacia em Nova Iorque.

O retorno de Komuro ao Japão causou um frenesi na mídia no final de setembro, com seu penteado de rabo de cavalo fazendo manchetes. Após mais críticas públicas, ele cortou o cabelo antes de visitar os pais da princesa Mako no palácio de Akasaka na semana passada.

Kei Komuro causou furor com seu rabo de cavalo ao chegar no Japão em 27 de setembro | Foto: Kazuhiro Nogi

Komuro e a princesa se conheceram em 2012 como estudantes na International Christian University em Tóquio e estiveram oficialmente noivos em setembro de 2017.

O casamento estava previsto inicialmente para 4 de novembro de 2018, mas a agência anunciou em fevereiro do mesmo ano o adiamento das cerimônias rituais após relatos sobre a disputa financeira entre a mãe de Komuro e o ex-noivo dela.

Desejo de paz

Em um comunicado divulgado após a coletiva de imprensa, Mako disse que estava angustiada com uma das questões que associavam seu casamento à palavra “escândalo”.

“Eu desejo apenas ter uma vida de paz em meu novo ambiente [Nova Iorque]”, disse ela.

Opinião pública contra as leis da Casa Imperial

A princesa Mako é a filha mais velha do Príncipe Akishino e da princesa Kiko. Por sua vez, Akishino é o filho mais novo do imperador emérito Akihito e da imperatriz emérita Michiko. Atualmente, ele é o primeiro na linha de sucessão ao Trono do Crisântemo, conforme é denominado o trono do império japonês.

A posição de Akishino com príncipe herdeiro é porque seu irmão mais velho, o imperador Naruhito, não tem filhos do sexo masculino e sua filha não poderá ascender ao trono porque a Casa Imperial Japonesa não permite mulheres na posição de “imperador”.

Isso quer dizer que o irmão mais novo de Mako, o príncipe Hisahito, de 15 anos, é o 2º na linha de sucessão e provável imperador. Segundo a mídia japonesa, o nascimento de Hisahito foi um alívio para membros partidários tradicionalistas do Japão, isso porque o nascimento de um homem com descendência direta do imperador desencorajou as propostas que sugeriam a sucessão feminina.

Antes do nascimento de Hisahito, quase 90% da população mostrava-se favorável à mudança e torciam pela reforma nas leis da Casa Imperial e assim possibilitar a ascensão da princesa Aiko, de 19 anos, única filha do príncipe herdeiro Naruhito e que, por direito, seria a segunda na linha de sucessão.

Porém, os membros da família imperial estão reduzindo significativamente. Após o casamento da princesa Mako, o número de membros da família imperial caiu para 18, sendo 13 mulheres.

Mediante isso, muitos defendem uma “reforma em grande escala” nas leis japonesas, tanto para que mulheres ascendam ao trono como também para que as mesmas não percam os direitos de realeza ao se casarem com plebeus, um direito permitido somente a casta real masculina.

A imperatriz emérita Michiko e a Imperatriz Masako não têm sangue nobre, portanto, eram plebeias antes de contrair matrimônio com a máxima da casta imperial japonesa.

== Mundo-Nipo (MN)
Fontes: Reuters | Kyodo News.

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