Mitos e Lendas

Mitologia japonesa: Kona-hana, a Deusa do Monte Fuji

Deusa do Fuji (Foto: Creative Commons)

Conta que esta Deusa atirava na cratera os peregrinos de coração impuro que ousavam caminhar no Monte Fuji…

Atualizado em 12/05/2017


Ko-no-hana-saku-ya-hime ou Konohanasakuya-hime (Florescente e radiante como as flores das árvores) é o nome mitológico japonês para Sengen-sama, a Deusa do Fuji.

No cimo do Monte Fuji ou Fuji-no-Yama (a montanha de Fuji) está situado o templo de Sengen-sama. Dizem que, em tempos antigos, essa Deusa pairava em uma nuvem luminosa acima da cratera, assistida por servos invisíveis aos olhos dos mortais, prontos a atirar em suas profundezas qualquer peregrino que não tivesse um coração puro.

Na mitologia japonesa, Konohanasakuya-hime, ou somente Kono-haha, é a filha do Deus da montanha Ohoyamatsumi. Essa Deusa acumula um vasto simbolismo em sua mitologia, que incluiu saúde, longevidade e compaixão. A Deusa também representa o amor efêmero, especialmente porque um de seus símbolos é a sakura (flor de cerejeira), cuja floração dura apenas uma semana.

Contudo, a mitologia japonesa aponta Kono-hana como a Deusa de todos os vulcões do Japão, segundo relatos no livro Kojiki ou Furukotofumi (registro das coisas antigas), datado de 712.

Não é surpreendente descobrir que inúmeras lendas foram criadas em torno do Fuji-san e desta Deusa, que dizem ser a própria alma da esplendorosa montanha que, por sua vez, tem seu surgimento relatado como o mais fantástico de todos. Contam que, em tempos longínquos, o sagrado monte surgiu da noite para o dia.

Lendas
Uma famosa história envolvendo o Fuji-san e a Deusa do Fuji relata sobre os poderes de cura da Deusa, que ajuda os necessitados, mas somente os de coração verdadeiramente puro.

E coração puro tinha o jovem Yosoji que, em tempos longínquos, encontrava-se desesperado pela mãe que estava enferma, acometida de varíola, como tantas outras pessoas na aldeia em que ele e sua mãe viviam.

Yosoji, então, resolveu consultar o místico Kamo Yamakiko, uma espécie de feiticeiro da aldeia, sobre o que fazer para a sua mãe melhorar, pois a qualquer momento poderia ser arrebatada pela morte.

O feiticeiro mandou Yosoji ir a um regato que descia do lado sudeste do Monte Fuji e disse: “Perto da nascente deste regato está o altar do Deus da Longa Vida. Tome dessa água e dê para sua mãe beber. Isso bastará para curá-la, concluiu o feiticeiro”.

Cheio de esperança, Yosoji encetou marcha rumo ao regato e, quando chegou a uma encruzilhada, ficou em dúvida quanto à direção tomar. Enquanto ponderava a respeito viu que dele se aproximava, vinda da floresta, uma linda jovem vestida de branco.

Deusa do Fuji, arte de Rhaine Elric.

Deusa do Fuji, arte de Rhaine Elric.

A beleza e delicadeza da moça deixou Yosoji com  corpo e mente paralisados, tanto que mal conseguia entender o som melodioso entoado nas palavras da bela jovem, que dizia para ele segui-la até o lugar onde nascia o precioso regato junto ao altar do Deus de Longa Vida.

Uma vez no regato, a moça pediu para Yosoji beber aquela água borbulhante e depois encher uma cuia para levar à mãe enferma. Isso feito, a linda jovem o acompanhou até o ponto que haviam se encontrado e disse: “Encontre-me neste mesmo lugar dentro de três dias, porque você precisará de mais doses desta água”.

Depois de cinco visitas ao local sagrado, Yosoji exultou ao ver que sua mãe estava muito bem, como muitos dos aldeões que tiveram o privilégio de beber daquela sagrada água. A bravura de Yosoji foi proclamada em alto e bom tom, juntamente com o feiticeiro que recebeu muitos presentes devido a seu conselho oportuno.

Yosoji, porém, que era uma pessoa honesta, no fundo de seu coração sabia que todo louvor cabia à linda jovem que havia sido seu guia. Desejava agradecer-lhe muito e, com essa finalidade, uma vez mais rumou para o regato.

Ao chegar ao altar do Deus da Longa Vida, viu que o regato havia secado. Muito surpreso e com grande tristeza no coração, ajoelhou-se e pediu que aparecesse aquela que havia sido tão boa para sua mãe, pois o que ele mais desejava era poder agradecer tanto quanto ela merecia.

Após a súplica, Yosoji levantou a cabeça e viu a moça diante de si. Então, com palavras elegantes e sinceras, expressou toda a sua gratidão. Pediu a ela, que havia sido seu guia e a quem devia o restabelecimento de sua mãe, dissesse como se chamava. Porém, a jovem, embora sorrisse docemente, calava seu nome.

Sempre sorrindo, ela sacudiu no ar um galho de camélia e pareceu que as belas flores acenavam para algum espírito invisível que estavam à distância. Em resposta ao aceno florido, desceu uma nuvem do Monte Fuji que envolveu a linda jovem e a transportou para amontanha sagrada de onde ela viera.

Dado esse fato, Yosoji ficou sabendo que a Deusa do Fuji fora sua guia. Ajoelhou-se em êxtase, observando a figura que partia e teve consciência de que, além de agradecimento, em seu coração existia amor.

Durante a ascensão, a Deusa do Fuji lhe atirou o galho de camélia. Uma lembrança ou talvez um sinal de que ela o amava também.

Veja abaixo um dos mais famosos poemas sobre o Monte Fuji:

Fujiyama,

Tocado por seu hálito divino, retornamos à forma de Deus.
Teu silêncio é canto, teu canto é o canto do Céu.
Nossa terra de preocupação e febre se transforma em um lar de evidente doçura numa morada distante da terra onde homens nascem apenas para morrer.
Nós, filhas e filhos japoneses, enaltecendo sua serena majestade, o orgulho de Deus, imprimimos nossas sombras em teu seio, o mais suave lugar da eternidade.
Ô maravilha de face branca, ô sublimidade, ô beleza!
Mil rios carregam tua sagrada imagem no espelho de suas águas.
Todas as montanhas erguem-se para ti como maré que sobre, na esperança de ouvir teu comando.
Veja! Os mares que circundam o Japão perdem toda a sua agressividade, bafejados por um vai-e-vem de berços.
À vista de tua sombra, como alguém em um sonho poético, perto de ti esquecemo-nos de morrer.
A morte doce e a vida mais doce que a morte.
Somos mortais e também deuses, tuas inocentes companhias.…
Ó Fuji imortal!”
(Poema de Yone Noguchi)

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2008)
Fontes principais de pesquisa
• Livro: Legends of Japan | Author: F. Hadland Davis
• Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
• Dicionário: Shogakukan – Dicionário Universal Japonês-Português | Autor: Jaime Coelho | Editora: Shogakukan

*É permitida a reprodução somente para fins educativos e desde que com o devido crédito ao Mundo-Nipo.com. Para reprodução com fins comerciais, ler informações em Restrição de uso.

Comentários