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O tabu do beijo no Japão

Detalhe da pintura em rolo "Sode no maki" (1785). obra do artista Torii Kiyonaga (Foto: Mundo-Nipo/Livro Arte Japonesa)

No Japão, beijar em público não é usual, um ato repleto de tabus em razão da cultura tradicional do país…

Atualizado em 22/11/2016 – 10h25


No Japão, beijar não é um ato usual como em grande parte dos países ocidentais, que usam o beijo como a mais simples forma de cumprimento. O fato é que na terra do sol nascente ele é considerado, pela grande maioria, um imenso tabu.

Os ocidentais são muito íntimos desse costume, chegando a ser corriqueiro quando encontram amigos em meio a lugares públicos e cumprimentam-se com um, dois, três beijos ou mais – a quantidade dependendo do costume da região. Na maioria dos países, beijar é um ato praticamente instintivo, onde as pessoas praticam sem nenhuma cerimônia.

Palavra “beijo” em japonês
No Japão, não existe propriamente uma palavra que represente uma simples tradução literal para o “beijo”. Isso pode parecer incrível, no entanto, para os japoneses, o beijo não fazia parte de sua cultura em tempos longínquos, quando era considerado um ato profundamente íntimo. Esta prática era proibida em público e rotulada como um verdadeiro escândalo e falta de respeito.

Entretanto, existem algumas palavras tradicionais na língua japonesa que podem ser usadas como definição para o beijo. Mas a palavra que realmente representa o beijo é um neologismo criado pelos japoneses, por influência da língua inglesa, vindo a surgir à palavra neológica “Kissu ou Kisu”, que provem do “Kiss” (beijo em inglês).

No dicionário japonês (dicionário japonês / português) existem palavras que podem simbolizar o beijo. Uma delas é “Seppun”. A palavra é descrita literalmente como: forma de demonstrar o sentimento, o respeito, levando os seus lábios em contato com os lábios, bochecha ou mãos de uma pessoa e sugando-o. Há ainda o termo “kuchizuke”: encostar a boca.

Formas de cumprimento
Diferente dos ocidentais, que geralmente usam o beijo como simples forma de cumprimento, os japoneses sempre se cumprimentam realizando o “Ojigi” (ato de curvar-se como forma de cumprimento).

Ilustração da capa do livro "Svastika", do escritor Jinichiro Tanizaki (Foto: Mundo-Nipo)

Ilustração da capa do livro “Svastika”, do escritor Jinichiro Tanizaki (Foto: Mundo-Nipo)

O aperto de mão não existe no Japão, onde o contato físico, seja em qualquer situação, é considerado falta de educação. Um grande exemplo disso é o ato de tocar a outra pessoa, seja com a mão ou qualquer parte do corpo, em meio a uma simples conversa informal, sendo considerado totalmente inapropriado mesmo entre conhecidos e até profundos amigos.

No geral, os japoneses evitam toques físicos, isso porque desde pequenos são educados a manterem certa distância física, não se permitindo tocar ou ser tocado.

Beijo em público
No país do sol nascente, é extremamente raro ver casais se beijando em público e, caso aconteça, o ato pode causar rubor e até chocar os mais conservadores. Poderia se dizer que o constrangimento deve-se a educação tradicional, além da timidez típica dos japoneses.

Na cultura tradicional japonesa, beijar é considerado como ato extremamente íntimo desde tempos antigos, quando seus ancestrais mantinham o beijo como o início para o ato sexual, representando demonstração de carinho somente para ocasiões extremamente íntimas.

Contato com a cultura ocidental
Após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses passaram a ter um contato mais profundo com a liberdade americana, fazendo com que o ato de beijar passasse a ser menos reprimido e considerado, pelos menos conservadores, como forma de demonstração de afeto e amizade. Mas, apesar do contato com a liberdade ocidental, ainda é raro vê-los se beijando em lugares públicos ou simplesmente cumprimentando-se com um beijo, pois os japoneses, seja de qualquer geração, ainda conservam o ato de curvar-se como principal forma de cumprimento entre familiares e amigos íntimos.

Conservando a tradições
A cultura japonesa é bastante conservadora e, mesmo sofrendo algumas mudanças ao longo dos últimos dois séculos, os japoneses mantêm suas principais tradições, indicando que a forma tradicional de cumprimento, até em ocasiões informais, ainda irá perdurar por muito tempo.

Quebrando tabus
Contudo, esse tabu cultural não pode ser considerado uma generalização, dado o fato de que muitos jovens, principalmente nas grandes cidades, como Tóquio, são vistos andando de mãos dadas, cumprimentando-se com beijo no rosto e até beijando-se em público, sendo esse último ato um pouco raro.

Casal de japoneses se beijando em público (Foto: Picssr Photos)

Casal de japoneses se beijando em público (Foto: Picssr Photos)

De acordo com uma matéria do tradicional jornal ‘The Asahi Shimbun’, publicada em dezembro de 2015, o contato físico, incluindo beijos no rosto e andar de mãos entrelaçadas, tem crescido entre os japoneses. Na matéria, o jornal explicou que cerca de 19% dos casais jovens, com idades entre 17 e 29 anos, se beijam em público. Esse número sobe para 29% nas grandes cidades. Em Tóquio e Osaka, a porcentagem supera os 32%.

Além disso, algumas crianças e adolescentes têm usado o beijo no rosto em sinal de cumprimento. A maioria, no entanto, ainda praticam o tradicional ato de curvar-se antes do contato físico (beijo ou abraço), uma iniciativa considerada um grande passo para que os japoneses consigam, em um futuro não muito distante, quebrar  o “tabu em relação ao beijo” e, assim,  expressar seus sentimentos sem a habitual timidez ou pressão cultural.

Educação japonesa conservadora
Estudiosos acreditam que essa alta carga cultural, bem como a educação conservadora familiar, é uma das principais responsáveis pelo crescente suicídio e reclusão deliberada dos japoneses. Segundo uma pesquisa encomendada no início de 2016 pela agência de notícias japonesa ‘Kyodo’, especialistas acreditam que, “apesar de ser positivo manter tradições e cultura local, é preciso que nações com costumes conservadores evolua de acordo com a globalização atual e futura”.

Ainda de acordo com a ‘Kyodo’,  nações com tradições que exigem muito do indivíduo, seja nos estudos, educação e trabalho, sofrem com altos índices de suicídio, como é o caso do Japão, onde os cidadãos são educados a não expressar inquietações ou qualquer tipo de problema, além de orientação para evitar o contato físico.

“Esses costumes têm levado muitos japoneses a reclusão deliberada e a falta de interesse em relacionamentos amorosos”, explica a ‘Kyodo’, acrescentando que tais problemas são os principais motivos para a forte queda na taxa de natalidade e do crescente envelhecimento populacional.

Uma pesquisa do governo japonês, divulgada em setembro de 2016, destaca uma tendência alarmante de pessoas que têm se retirado da sociedade. Segundo o estudo, 541.000 pessoas no Japão com idade entre 15 e 39 anos evitam o contato social e se fecham em suas casas.

A pesquisa revela ainda que os japoneses têm se retirado da sociedade por um período cada vez mais longo. “hikikomori” (termo japonês dado a pessoas que optam viver reclusas em seus lares) que se isola em suas casas por pelo menos sete anos representa aproximadamente 35% do total dos entrevistados.

O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão define “hikikomori” como “pessoa que tenha ficado em casa por pelo menos seis meses, sem ir à escola, ao trabalho e sem interagir com outras pessoas em qualquer ambiente social”.

Além disso, o estudo também mostrou que o número de tais reclusos na faixa etária entre 35 e 39 anos mais que dobrou no ano passado.

A pesquisa, que é apenas a segunda de seu tipo no Japão, foi realizada a partir de dezembro de 2015 e cobriu 5.000 domicílios em todo o país, mas apenas lares com pelo menos um membro com idade entre 15 e 39 anos. Isso indica que o número pode ser muito mais alarmante.

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2006)
Principais fontes de pesquisa:
Livro: História da Cultura Japonesa | Autor: José Yamashiro
Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
Dicionário: Shogakukan – Dicionário Universal Japonês-Português | Autor: Jaime Coelho | Editora: Shogakukan

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