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O tabu do beijo no Japão

Detalhe da pintura em rolo "Sode no maki" (1785). obra do artista Torii Kiyonaga (Foto: Mundo-Nipo/Livro Arte Japonesa)

No Japão, beijar em público não é usual, um ato repleto de tabus em razão da cultura tradicional do país…

Atualizado em 16/05/2017


No Japão, beijar não é um ato usual como em grande parte dos países ocidentais, que usam o beijo como a mais simples forma de cumprimento. O fato é que na terra do sol nascente ele é considerado, pela grande maioria, um imenso tabu.

Os ocidentais são muito íntimos desse costume, chegando a ser corriqueiro quando encontram amigos em meio a lugares públicos e cumprimentam-se com um, dois, três beijos ou mais – a quantidade dependendo do costume da região. Na maioria dos países, beijar é um ato praticamente instintivo, onde as pessoas praticam sem nenhuma cerimônia.

Palavra “beijo” em japonês
Até pouco tempo, no Japão, não existia propriamente uma palavra que representasse uma simples tradução literal para o “beijo”. Isso pode parecer incrível, no entanto, para os japoneses, o beijo não fazia parte de sua cultura em tempos longínquos, quando era considerado um ato profundamente íntimo. Esta prática era proibida em público e rotulada como um verdadeiro escândalo e falta de respeito.

Entretanto, atualmente existem algumas palavras tradicionais na língua japonesa que podem ser usadas como definição para o beijo. Mas a palavra que realmente representa o beijo é um neologismo criado pelos japoneses, por influência da língua inglesa, vindo a surgir à palavra neológica “Kissu ou Kisu”, que provem do “Kiss” (beijo em inglês).

No dicionário japonês (dicionário japonês / português) existem palavras que podem “simbolizar” o beijo. Uma delas é “Seppun”. A palavra é descrita literalmente como “forma de demonstrar o sentimento, o respeito, levando os seus lábios em contato com os lábios, bochecha ou mãos de uma pessoa e sugando-o”. Há ainda o termo “kuchizuke”, literalmente “encostar a boca”, só não diz onde.

Formas de cumprimento
Diferente dos ocidentais, que geralmente usam o beijo como simples forma de cumprimento, os japoneses sempre se cumprimentam realizando o “Ojigi” (ato de curvar-se como forma de cumprimento).

Ilustração da capa do livro "Svastika", do escritor Jinichiro Tanizaki (Foto: Mundo-Nipo)

Ilustração da capa do livro “Svastika”, do escritor Jinichiro Tanizaki (Foto: Mundo-Nipo)

O aperto de mão não existe no Japão, onde o contato físico, seja em qualquer situação, é considerado falta de educação. Um grande exemplo disso é o ato de tocar a outra pessoa, seja com a mão ou qualquer parte do corpo, em meio a uma simples conversa informal, sendo considerado totalmente inapropriado mesmo entre conhecidos e até profundos amigos.

No geral, os japoneses evitam toques físicos, isso porque desde pequenos são educados a manterem certa distância física, não se permitindo tocar ou ser tocado.

Beijo em público
No país do sol nascente, é extremamente raro ver casais se beijando em público e, caso aconteça, o ato pode causar rubor e até chocar os mais conservadores. Poderia se dizer que o constrangimento deve-se a educação tradicional, além da timidez típica dos japoneses.

Na cultura tradicional japonesa, beijar é considerado como ato extremamente íntimo desde tempos antigos, quando seus ancestrais mantinham o beijo como o início para o ato sexual, representando demonstração de carinho somente para ocasiões extremamente íntimas.

Contato com a cultura ocidental
Após a Segunda Guerra Mundial, os japoneses passaram a ter um contato mais profundo com a liberdade americana, fazendo com que o ato de beijar passasse a ser menos reprimido e considerado, pelos menos conservadores, como forma de demonstração de afeto e amizade. Mas, apesar do contato com a liberdade ocidental, ainda é raro vê-los se beijando em lugares públicos ou simplesmente cumprimentando-se com um beijo, pois os japoneses, seja de qualquer geração, ainda conservam o ato de curvar-se como principal forma de cumprimento entre familiares e amigos íntimos.

Conservando a tradições
A cultura japonesa é bastante conservadora e, mesmo sofrendo algumas mudanças ao longo dos últimos dois séculos, os japoneses mantêm suas principais tradições, indicando que a forma tradicional de cumprimento, até em ocasiões informais, ainda irá perdurar por muito tempo.

Quebrando tabus
Contudo, esse tabu cultural não pode ser considerado uma generalização, dado o fato de que muitos jovens, principalmente nas grandes cidades, como Tóquio, são vistos andando de mãos dadas, cumprimentando-se com beijo no rosto e até beijando-se em público, sendo esse último ato um pouco raro.

Casal de japoneses se beijando em público (Foto: Picssr Photos)

Casal de japoneses se beijando em público (Foto: Picssr Photos)

De acordo com uma matéria do tradicional jornal ‘The Asahi Shimbun’, publicada em dezembro de 2015, o contato físico, incluindo beijos no rosto e andar de mãos entrelaçadas, tem crescido entre os japoneses. Na matéria, o jornal explicou que cerca de 19% dos casais jovens, com idades entre 17 e 29 anos, se beijam em público. Esse número sobe para 29% nas grandes cidades. Em Tóquio e Osaka, a porcentagem supera os 32%.

Além disso, algumas crianças e adolescentes têm usado o beijo no rosto em sinal de cumprimento. A maioria, no entanto, ainda praticam o tradicional ato de curvar-se antes do contato físico (beijo ou abraço), uma iniciativa considerada um grande passo para que os japoneses consigam, em um futuro não muito distante, quebrar  o “tabu em relação ao beijo” e, assim,  expressar seus sentimentos sem a habitual timidez ou pressão cultural.

Educação japonesa conservadora
Estudiosos acreditam que essa alta carga cultural, bem como a educação conservadora familiar, é uma das principais responsáveis pelo crescente suicídio e reclusão deliberada dos japoneses. Segundo uma pesquisa encomendada no início de 2016 pela agência de notícias japonesa ‘Kyodo’, especialistas acreditam que, “apesar de ser positivo manter tradições e cultura local, é preciso que nações com costumes conservadores evolua de acordo com a globalização atual e futura”.

Ainda de acordo com a ‘Kyodo’,  nações com tradições que exigem muito do indivíduo, seja nos estudos, educação e trabalho, sofrem com altos índices de suicídio, como é o caso do Japão, onde os cidadãos são educados a não expressar inquietações ou qualquer tipo de problema, além de orientação para evitar o contato físico.

“Esses costumes têm levado muitos japoneses a reclusão deliberada e a falta de interesse em relacionamentos amorosos”, explica a ‘Kyodo’, acrescentando que tais problemas são os principais motivos para a forte queda na taxa de natalidade e do crescente envelhecimento populacional.

Uma pesquisa do governo japonês, divulgada em setembro de 2016, destaca uma tendência alarmante de pessoas que têm se retirado da sociedade. Segundo o estudo, 541.000 pessoas no Japão com idade entre 15 e 39 anos evitam o contato social e se fecham em suas casas.

A pesquisa revela ainda que os japoneses têm se retirado da sociedade por um período cada vez mais longo. “hikikomori” (termo japonês dado a pessoas que optam viver reclusas em seus lares) que se isola em suas casas por pelo menos sete anos representa aproximadamente 35% do total dos entrevistados.

O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão define “hikikomori” como “pessoa que tenha ficado em casa por pelo menos seis meses, sem ir à escola, ao trabalho e sem interagir com outras pessoas em qualquer ambiente social”.

Além disso, o estudo também mostrou que o número de tais reclusos na faixa etária entre 35 e 39 anos mais que dobrou no ano passado.

A pesquisa, que é apenas a segunda de seu tipo no Japão, foi realizada a partir de dezembro de 2015 e cobriu 5.000 domicílios em todo o país, mas apenas lares com pelo menos um membro com idade entre 15 e 39 anos. Isso indica que o número pode ser muito mais alarmante.

Por Maria Rosa (artigo criado originalmente em 2006)
Principais fontes de pesquisa:
Livro: História da Cultura Japonesa | Autor: José Yamashiro
Livro: Japan – Dictionary Culture and Civilization | Autores: Frederic Louis David and Alvaro Iwang
Dicionário: Shogakukan – Dicionário Universal Japonês-Português | Autor: Jaime Coelho | Editora: Shogakukan

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